Há algum tempo eu adotei um critério bastante rigoroso para avaliar a qualidade das minhas aulas: as risadas. Hoje em dia ninguém mais pode se arrogar ser o detentor de determinado conhecimento; as informações estão aí, disponíveis e acessíveis para quem quiser, e por isso é muita inocência achar que eu tenha algo a dizer que as pessoas só obterão de mim. O que procuro fazer é organizar parte dessa infinidade de informações, traduzindo-as em alguma forma de conhecimento, e transmiti-lo da maneira mais divertida possível. Sempre acho que a aula foi ruim quando as pessoas não riram, por mais conteúdo que tenha sido passado.

Descubro agora que aparentemente isso ajuda de fato as pessoas a se lembrarem do que aprenderam. Não apenas pelo componente afetivo que acompanha o riso – já que lembramos mais das coisas afetivamente significativas – mas por uma ação fisiológica da risada. Nesse mês foi apresentado um trabalho no congresso Experimental Biology no qual a capacidade de aprendizado, memorização e reconhecimento visual de idosos foi testada antes e depois de assistir a um vídeo de humor. Dois grupos, um de idosos saudáveis e um de diabéticos, viram um vídeo de humor, e um grupo controle não teve a mesma oportunidade de rir. Aplicando testes neuropsicológicos em dois momentos, a performance de todos os grupos melhorou na segunda avaliação, mas entre os que viram o vídeo a melhora foi mais significativa em todos os parâmetros. Paralelamente os níveis de cortisol salivar também foram medidos. Esse hormônio é liberado em nosso organismo em situações de estresse, inibindo a atividade do hipocampo. Como essa é uma região do cérebro fundamental na consolidação das memórias, o estresse dificulta a memorização. O nível de cortisol entre os idosos que riram apresentou pequena redução entre os saudáveis e uma grande redução entre os diabéticos, mas nenhuma mudança no grupo controle, resultados que podem ajudar a explicar a melhora no aprendizado e na memória.

A pesquisa só avaliou a memorização de curto prazo, não apresentando ainda resultados num período de tempo mais longo: será que esse aprendizado turbinado pelo riso também perdura por mais tempo, ou é só algo imediato? Se a redução do cortisol se mostrar consistente e importante, provavelmente os resultados serão duradouros.

Mas mesmo que não sejam, continuo apostando que uma aula divertida vale mais do que duas chatas.

G.S. Bains, L. Berk, N. Daher, E. Lohman, J. Petrofsky,E. Schwab, P. Deshpande. Effectiveness of humor on short-term memory function and cortisol levels in age matched elderly and diabetic subjects vs. control group. Experimental Biology, Apr 27, 2014.