Nem nos consultórios parece que há espaço para outro assunto que não sejam as eleições. Em reportagem publicada no Estadão, Gilberto Amendola mostra como as sessões de terapia têm sido pautadas pelo tema. Não que os tópicos abordados tenham mudado grande coisa – medos, angústias, conflitos familiares, crise na carreira, o repertório de assuntos que nos assombram não é tão extenso como imaginamos – mas todos parecem agora maculados pelas tintas eleitorais.

Semana passada conversamos aqui como essa campanha, talvez mais do que as anteriores, tem abusado do apelo ao medo. Os dois lados da disputa, cientes de que não atrairão mais simpatizantes, tentam captar votos aterrorizando as pessoas com a desgraça que seria a vitória de seu opositor. Não é uma técnica ineficaz – muitas pessoas acabam se convencendo de que um ou outro cenário são ameaçadores demais para elas, e mesmo não gostando do outro candidato decidem-se por ele.

Cruzada essa linha, contudo, outro sofrimento surge, do qual pouco se fala: o mal estar da escolha. Ou a angústia de quem não quer votar em ninguém.

Fora os entusiastas de primeira hora do Bolsonaro ou do PT, aquelas pessoas que antes da campanha já gostavam do discurso do ex-capitão ou acreditavam que Lula é um preso político, a maioria dos brasileiros irá passar por cima de algumas convicções nessa eleição. Poucos se sentem confortáveis em votar num sujeito que defendeu a tortura, por exemplo; mas raros são também os que se sentem tranquilos em referendar um candidato que se assume preposto de um presidiário. Quando opta por um ou outro, então, boa parte das pessoas sente um grande desconforto, conhecido como dissonância cognitiva. É o nome que se dá para o mal estar que experimentamos quando nossas ações não condizem com nossas convicções. Para evitar essa sensação, de duas uma: ou mudamos a ação ou mudamos de crença. Por isso aquele seu parente justifica ou desculpa tudo de negativo de seu candidato – é difícil para ele manter a sua autoavaliação como uma pessoa boa e ao mesmo tempo admitir que votará em alguém que representa tanta coisa ruim. Raciocínio que vale para os dois lados, desnecessário lembrar.

Como todas as habilidades humanas, a capacidade de fazer essa ginástica não é distribuída igualmente entre nós. Há quem facilmente se convença que seu candidato é do bem e sem esforço algum consiga minimizar seus defeitos. Mas na outra ponta há quem tenha grande dificuldade para tanto, não conseguindo se livrar da dissonância. E vale lembrar que assim como tem gente que aguenta muita dor e gente que desmaia com um arranhão, existe quem tolera muito melhor esse mal estar da dissonância cognitiva, não se incomodando tanto com o conflito entre suas convicções e suas atitudes, e há os que sofrem demais nessa situação.

É para essas pessoas – as que não conseguem mitigar a dissonância cognitiva e ao mesmo tempo não a toleram – que existe o voto nulo ou em branco. Elas podem ser xingadas de “isentonas”, hostilizadas, desqualificadas. Mas num país em que o voto ainda é, infelizmente, obrigatório, não ser forçado subscrever discursos que representam aquilo em que não se acredita é uma postura libertadora. E tão democrática como qualquer outra.

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Leitura mental

Muitos grupos de Whatsapp de famílias estão se desmantelando por esses dias. Bom, antes isso do que desmantelar a família de verdade – talvez as mídias sociais possam funcionar como um para-choque, que é destruído ao absorver o impacto, protegendo assim os passageiros. Mas há outro caminho. No livro A virtude da raiva (Sextante, 2018) Arun Ghandi, neto de Mahatma Gandhi, conta como seu avô o ensinou a usar a raiva para o bem. “A raiva é uma energia que nos impele a definir o que é justo e o que não é”, diz ele a seu enfurecido neto. Essa é a primeira das dez lições que o autor aprendeu com seu avô e que compartilha com os leitores. Outras incluem, por exemplo, “Mentiras levam a mais mentiras”, “Humildade é força”, “Os cinco pilares da não violência”. Lições que se já eram valiosas na época, hoje são fundamentais.