Após ser citada por um dos delatores da Operação Lava Jato, a presidente Dilma reagiu em uma entrevista coletiva, dizendo: “Eu não respeito delator. Até porque eu estive presa na ditadura e sei o que é. Tentaram me transformar em uma delatora; a ditadura fazia isso com as pessoas presas. E eu garanto para vocês que eu resisti bravamente, até em alguns momentos fui mal interpretada, quando eu disse que para… em tortura, a gente tem de resistir, porque senão você entrega seus presos. Então, não respeito nenhum… nenhuma fala”.

Não sei – e para o que estou apontando aqui, nem interessa – se ela recebeu ou não doações ilícitas. Também ignoro se ela tem ou não o direito de não respeitar tal delator (já que o ministro Teori Zavascki avaliou o teor da delação e a homologou, ou seja, considerou-a mais do que simples palavrório, integrando-a ao processo). Mas ela poderia ao menos respeitar a lógica informal, evitando apresentar um discurso falacioso como esse.

Falácias são aquelas afirmações que, por trás de sua aparente verossimilhança, escondem contradições ou inverdades. As diversas maneiras de construir um argumento falacioso são estudadas pela lógica informal, que se preocupa com os argumentos presentes na fala comum. E a entrevista da presidente é um exemplo perfeito da falácia denominada equívoco: nela, um termo que possui mais de um sentido é utilizado de forma ambígua, com sentidos diferentes, misturando seus significados. Senão vejamos: quando Dilma é perguntada sobre a delação premiada e diz que não respeita delator, aparentemente ela está se referindo ao sujeito que denuncia crimes de que tenha conhecimento – até por estar neles envolvido – em troca de algum benefício. Mas na sequência ela afirma que esteve presa e que tentaram transformá-la numa delatora, nesse caso referindo-se às pessoas que, torturadas, entregavam seus companheiros de luta. Ao fazer isso ela muda completamente o sentido de delação, mudando-o de denúncia de corrupção para traição. Os delatores são traidores, e como traidores não devem ser respeitados, eu não respeito os delatores, conclui implicitamente.

Além da lógica, a inteligência de quem a ouve acaba sendo desrespeitada: quando alguém opta pela delação premiada está aderindo a uma estratégia racional; aliás, a mais racional dada a circunstância, como nos ensina o dilema do prisioneiro. Por outro lado, a confissão sob tortura nem prova é considerada, tanto por violar a lei (que veta a prática), quanto por seu baixo valor de verdade, já que o torturado pode falar qualquer coisa para cessar seu sofrimento.

Portanto, o delator privilegiado e o delator torturado não são análogos, como fez crer Dilma. São praticamente opostos. Quem quiser respeitá-lo ou não, por mim tanto faz. Mas por favor, respeitemos a lógica. E a inteligência do povo.