Estávamos numa festa infantil. Talvez o leitor não conheça essa rica experiência sócio-antropológica: os pais nem sempre se conhecem bem mas estão confinados um espaço exíguo e forçados a conviverem por algumas horas enquanto as crianças se divertem. Isso leva ao desafio de conversar durante umas boas horas mantendo o papo ao mesmo tempo interessante e ameno. Encontrar temas que não levem ao tédio nem a debates acalorados é uma habilidade que se desenvolve ao longo dos anos de ensino infantil e fundamental (dos filhos). O que inevitavelmente inclui questões sobre escolas, educação, paternidade e maternidade.

Estava eu numa dessas incursões de campo, digo, festas infantis, quando uma mãe me perguntou se eu teria coragem de deixar meu filho estudar na USP. Não entendi o que coragem tinha a ver com a história, mas logo veio o complemento: “Do jeito que estão as drogas lá. Todo mundo usa. Eu tenho medo”. Duas coisas me vieram à mente na mesma hora: os filmes sobre as loucuras dos jovens universitários e as falas do ministro da educação condenando a balbúrdia nas universidades, cheias de  “gente pelada dentro do campus“.

Mas a percepção de que todo mundo usa drogas nas faculdades é equivocada. Claro, ninguém faz filme sobre os alunos comportados, que estudam, vão bem, pegam seus diplomas e seguem a vida – ou seja, a maioria. Sejam para fazer comédia ou drama, sexo, drogas e conflitos familiares é que rendem boas tramas, mas estão longe de representar a maioria, nem mesmo a média.

O maior levantamento já feito nas universidades brasileiras em 27 capitais, seguindo metodologia epidemiológica rigorosa, encontrou dados bem diferentes. Oitenta por cento dos estudantes já haviam experimentado álcool, por exemplo, e 60% haviam usado nos últimos trinta dias. Já com maconha os números eram muito menores: 18,3% já tinham usado alguma vez na vida pública, mas no último mês só 7 em cada 100 tinham fumado. As outras drogas ilícitas tinham uso recente sempre abaixo de 1 a 2%. Ainda que os número pudessem estar subdimensionados (a pesquisa é de 2010), e mesmo que os alunos houvesse mentido, se nós exagerássemos e dobrássemos a prevalência do uso de drogas, ainda assim o cenário real é bem distante do “está tudo mundo usando drogas”.

É no solo fértil dessa percepção distorcida da realidade que vicejam as campanhas difamatórias. Quando o ministro Weintraub quis mexer com as verbas para a educação ele sabia que fomentar o descrédito com relação às universidades faria sucesso e atrairia pessoas para seu lado. Apelar para o medo e fundamentá-lo em pressupostos já difundidos na população é uma fórmula infalível – ainda mais com ajuda de um pequeno exército de robôs nas redes sociais.

Para quem acha que a preocupação com fake news são exageradas, que esses memes espalhados pelo mundo virtual não têm impacto no mundo real, acho essa história muito ilustrativa. Aquela mãe pode ou não querer que seu filho estude na USP ou em qualquer outro lugar. Mas me dá um frio na barriga imaginar esse garoto crescendo, estudando, desenvolvendo potencial para aprovado no concorrido vestibular para uma das grandes universidades do mundo e sendo dissuadido pela mãe por causa de um medo totalmente infundado.

 

Ref:  Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas. I Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras/Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas; GREA/IPQ-HCFMUSP; organizadores Arthur Guerra de Andrade, Paulina do Carmo Arruda Vieira Duarte, Lúcio Garcia de Oliveira. Brasília: SENAD; 2010

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Leitura mental

Em tempos de fake news estamos todos preocupados em encontrar a verdade (ou deveríamos estar). Encontrá-la pode já não ser tarefa fácil; mas mesmo depois de achada, lidar com ela é um desafio extra. Em Verdade : 13 motivos para duvidar de tudo que te dizem (Objetiva, 2019) o escritor e estrategista de comunicação, Hector MacDonald mostra como mesmo informações reais podem ser usadas para nos enganar. Os treze motivos vêm divididos em quatro sessões, Verdades parciais, Verdades subjetivas, Verdades artificiais e Verdades desconhecidas, nos quais ele ajuda o leitor a navegar no mar de informações para não só separar verdade e mentira, mas verdade e verdade.