Antes que me acusem de fugir da raia, volto a público com minha resolução de ano novo: comer melhor. Menos do que emagrecer (o que não é o objetivo, mas não seria nada ruim) a ideia é encontrar maneiras de comer bem, de forma saudável, evitando (ou minimizando o quanto possível) as tão frequentes recaídas. E fazer isso de uma maneira não baseadas em palpites, mas baseada em evidências científicas.

Dado o primeiro passo de assumir o compromisso público, fui buscar dados para decidir qual seria a melhor dieta para seguir. Nessa busca fiz duas descobertas principais: a primeira é que, nessa área de nutrição, o que não falta são modismos sem qualquer comprovação. Parece que basta criar uma história interessante que qualquer cardápio esdrúxulo ganha ar de panaceia. Se uma celebridade entra na onda então, em pouco tempo todo mundo quer seguir a dieta que promete perder barriga, evitar o câncer, emagrecer e trazer a pessoa amada em três dias.

Mas a segunda coisa que descobri é que, das dietas cientificamente testadas, todas giram em torno do óbvio. Quer ver só? Pare por um momento e pense no que consideraria uma alimentação saudável. Descreva para si mesmo o que ela deveria ou não conter. Se quiser acrescente as proporções dos tipos de alimentos. Pronto? Aposto que você chegou muito perto da maioria dos cardápios reconhecidamente saudáveis.

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  • dieta mediterrânea, inspirada pelo cardápio de povos europeus que vivem ao redor do Mar Mediterrâneo; a DASH (Abordagem Dietética para Deter a Hipertensão, na sigla em inglês) e a TLC (Mudanças Terapêuticas de Estilo de Vida – focada na redução do colesterol), ambas desenvolvidos com suporte do Instituto Nacional de Saúde dos EUA; a MIND diet   PDF
, que prospectivamente relacionou determinados alimentos com a prevenção do Alzheimer; todas passaram por testes controlados, publicadas em revistas científicas comprovando seus benefícios. E todas são parecidas com o que todo mundo sabe. Preconizam, com poucas variações, aumento da quantidade de frutas e vegetais, consumo de castanhas, redução de gorduras animais,  dar preferência a carne de peixes e aves, utilização de óleos vegetais como azeite, substituição de grãos refinados por integrais, e fugir de doces e açúcares industriais. Vai dizer que sua vó já não falava exatamente isso?

O que todas têm em comum? Favorecer uma alimentação que não promova os famigerados picos glicêmicos. Creio que os bons resultados que elas trazem não se devam tanto às propriedades miraculosas dos seus ingredientes, mas sim à prevenção dos efeitos deletérios daquilo que elas restringem. Tanto que, nos estudos com diversas dessas dietas, vários mostraram que mesmo adesões parciais já trazem resultados positivos. Como já conversamos, dada nossa história evolutiva é muito difícil, senão impossível, cravar uma forma de alimentação que seja perfeita para nossos corpos (por mais apelo que tenha uma dieta chamada de “paleolítica”). Mas evidentemente o alto grau de processamento dos alimentos que ingerimos hoje, seja da farinha, do açúcar refinado, o que for, não é natural. Isso facilita a absorção rápida e promove elevações súbitas da taxa de glicose no sangue (os ditos picos glicêmicos). E estes picos sobrecarregam metabolicamente o organismo, levando a um estado inflamatório que está associado a infarto, diabetes, obesidade, demências, depressão – e cada dia se descobrem mais doenças.

Pronto. A dieta está definitivamente escolhida: nenhuma. Não vou seguir moda, não vou me aferrar em um cardápio. Como meu compromisso criar o hábito de comer o melhor possível, buscarei cuidar das proporções de alimentos saudáveis em relação às reconhecidas porcarias que ingerimos no dia-a-dia. O desafio agora é transformar o famoso “na medida do possível” no mais frequente que eu conseguir. É hora de usar truques mentais a nosso favor. Vamos hackear o cérebro!