Nós temos muito a aprender com os animais. Sim, pode até ser que eles também tenham coisas a aprender conosco. Afinal, se não fosse por nós eles não teriam os analgésicos, cobertorezinhos no frio ou ares-condicionados no verão. Mas essa desvantagem vem do fato de eles terem se afastado menos do que nós de sua origem selvagem. E dessa sintonia com sua natureza nós podemos extrair grandes lições.

Há algum tempo eu entrevistei a colega Marisol Sendin, médica responsável pela terapia assistida por cães no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. E um dos maiores aprendizados que tive foi sobre como os cães ajudam na socialização de alguns pacientes com autismo que apresentam comportamentos agressivos.

A interação com os cachorros-terapeutas, carinhosos, afetivos e dóceis, é bastante recompensadora para essas crianças. (Aliás, para todo mundo: o carinho que transborda desses animais é imediatamente cativante, afinal). Alguns pacientes, por conta da gravidade de sua condição, por vezes apresentam descontrole emocional diante de frustrações, raiva, medo, ciúme, sentimentos com os quais têm dificuldade para lidar. Então, quando eles se tornam agressivos com os cães, esses não devolvem a hostilidade. Não rangem os dentes, não ameaçam, não rosnam. Simplesmente deixam de brincar com aquela criança ou jovem. E quando eles se acalmam e voltam a interagir de forma pacífica, os animais retoma a brincadeira com a mesma alegria. Sem mágoa, sem “ficar de mal”, sem vingança.

Essas interações repetidas, privando os pacientes da gostosa atenção que estavam recebendo diante do mau comportamento, mas restaurando-a com a mesma intensidade diante da mudança de atitude, vão aos poucos ajudando-os a desenvolver o autocontrole, colaborando com sua socialização.

Provavelmente por ter filhos pequenos, o impacto dessa lição para mim foi enorme. Quantas vezes damos bronca, ralhamos, até mesmo gritamos, na tentativa de moldar o comportamento dos nossos filhos, sem nos dar conta que na maioria delas damos com os burros n’água. E pior – em outras tantas ocasiões, na esperança de lhes ensinar uma lição, mantemos um rancor (às vezes verdadeiro, às vezes fingido), crendo que eles aprenderão algo com esse sentimento de rejeição. Isso mesmo depois de terem emendado seu comportamento.

E claro que se isso que vale para nossas crianças, vale também para qualquer relacionamentos. Nem sempre nós somos tratados da maneira correta. A lição dos cães é que rosnar não ajuda nessa hora. Reduzir a recompensadora atenção afetuosa pode ser mais do que suficiente. Desde que a retomemos quando o outro perceber que pisou na bola.

Nossa dificuldade em agir assim só mostra quanto a razão nos afasta da sabedoria dos animais. Mas justamente por sermos racionais não podemos ignorar a beleza – e eficácia – dessa irracional sabedoria.

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Leitura mental

 

Se você já conversou com pais e mães sabe como eles são preocupados com quantas letras os filhos já reconhecem, com qual idade começam a ler, se já sabem fazer contas. A aquisição dessas capacidades cognitivas foi por muitos anos o grande indicador de desenvolvimento das crianças. Cada vez mais, contudo, as pesquisas mostram que, mais importante do que ensiná-las precocemente aos nossos filhos, é fundamental transmitir a eles as capacidades não cognitivas. Ensiná-los e dar-lhes a oportunidade de praticar o controle dos impulsos, a atenção à tarefa, a evitar distrações e armadilhas mentais, a administrar emoções e organizar os pensamentos pode ser mais urgente do que ensiná-los a ler ou fazer contas. No livro Como as crianças aprendem (Intrínseca, 2017) o jornalista Paul Tough traz as pesquisas que embasam esse tema, tratando-o de maneira compreensível e abrangente. Fundamental para os adultos aprenderem como as crianças aprendem.