Canforeiro

Na década de 1980 eu era criança e não entedia exatamente o medo que meus pais tiveram quando ouviram falar do aumento dos casos de meningite. Hoje entendo: na década anterior o Brasil atravessara uma epidemia da doença, e certamente os pais de época traziam frescas as memórias do caos, temendo por seus filhos.

Eu provavelmente não me lembraria do episódio – que foi transitório – se não fosse por um detalhe: os sachês de cânfora.

“Eles não funcionam”, disse meu pai .

“É, também acho que não”. – respondeu minha mãe. “Mas não custa. Parece que purifica um pouco o ar”.

E por alguns dias, menos do que uma semana se não me falha a memória,  fui para a escola com um pequeno saquinho de pano preso à blusa, contendo a poderosa cânfora. Igual a outros colegas de classe. É por causa dessa imagem que me lembro da história.

Mas isso foi há uns quarenta anos. Antes de entrarmos na era da medicina baseada em evidências, uma de suas maiores revoluções desde que Pasteur descobriu os microrganismos. Nem meus pais – que não são médicos – acreditam mais em tratamentos sem base científica.  Minha mãe, então, hoje em dia duvida até das mensagens que recebe no WhatsApp. E mesmo assim aqui estamos, quase meio século depois, de volta à cânfora.

Por mais bizarra que seja a notícia de que Itajaí queira instituir a ozonioterapia por via anal para tratar Covid19, acho ainda mais absurdo um detalhe que a muitos passou despercebido: a prefeitura vem distribuindo cânfora aos cidadãos. Em março o prefeito Volnei Morastoni, que é médico, tentou mandar agentes de saúde à casa das pessoas para pingar uma solução homeopática de boca em boca. Barrada pelo Ministério Público de Santa Catarina por seu absurdo, a iniciativa foi então reformulada e no mês seguinte começou a distribuição de glóbulos com tal preparação, para serem autoadministrados pelos cidadãos. Com a justificativa, segundo o site oficial da cidade, de que a “Camphora officinalis auxilia a fortalecer o sistema imunológico da população”.

O problema é que existem zero evidências para suportar tal alegação. Pesquisei os termos Camphora officinalis e immune system na na base de dados de estudos científicos pubmed e na biblioteca virtual de saúde, que reúne publicações da América Latina e Caribe, e encontrei os seguintes resultados, respectivamente: “No results were found.” e “Nenhum documento coincide com os termos de pesquisa”.

É isso o que acontece quando a sociedade adere ao argumento de que “mal não faz”, ou de que “não há provas que não funcione”. Passamos a investir o dinheiro público, pago pelo cidadão, em práticas sem qualquer base. Só que é óbvio que faz mal: cada real investido nessas iniciativas estapafúrdias é um real a menos para manter leitos de UTI, investir em esclarecimento, prevenção.

Passou da hora que entendermos que dinheiro posto no que não tem provas é dinheiro retirado daquilo que tem provas. Então, ao contrário do que tentam nos fazer crer, há coisas que custam sim – e muito – tentar.

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Leitura mental

No meio da enxurrada de publicações sobre epidemias e pandemias, o livro As regras do contágio : Por que as coisas se disseminam – o por que param de se propagar (Record, 2020), merece destaque. O autor Adam Kucharski é especialista na análise matemática de surtos de doenças, mas usa os modelos que domina para analisar propagações que incluem, mas não se limitam, às moléstias infecciosas. De boatarias a vídeos que viralizam, o comportamento humano é central para muitos tipos de disseminação – e conhecê-lo é essencial para interromper os mais diversos surtos.