Fonte Pixabay

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Já esclareço de saída que esse texto é daqueles para desagradar tanto quem duvida da existência de uma cultura do estupro como quem acha que erradicar o machismo solucionaria o problema. Então se você é radical de um ou de outro lado, faça como a maioria das pessoas e não leia o texto até o fim – quando muito compartilhe criticando, mesmo sem ler.

Cultura e biologia, cérebro e sociedade, natureza e criação. Tais esferas da realidade são tão auto-evidentes que é difícil entender como é possível ignorar uma delas. Sobretudo num problema tão complexo como o estupro.

Como negar que exista uma cultura do estupro? Uma sociedade que diz para as mães prenderem as cabritas porque os bodes estão à solta, em que os pais de meninas ouvem piadas dizendo que são fornecedores, em que garotas que se envolvem em vários relacionamentos são galinhas, mas homens são garanhões, os sinais são claros. É óbvio que ninguém se torna estuprador por ouvir essas coisas, mas o ambiente cultural criado é de normalização do comportamento sexual predatório por parte dos homens. Uns vão se sentir à vontade para fazer piadas, outros para organizarem grupos de apologia ao assédio em transportes públicos. Uns acharão normal beijar à força na balada,outros considerarão inadmissível uma mulher não querer fazer sexo depois de ir sozinha com um homem à sua casa. Por outro lado, numa cultura igualitária, intolerante com qualquer forma de diminuição do poder de escolha feminina, as pessoas se sentem menos autorizadas a constrangê-las sexualmente.

Só que não bastar mudar a cultura para acabar com os estupros. Afinal, nós somos seres civilizados, inseridos numa cultura, mas somos primatas. Querer atribuir o todo do comportamento sexual humano à sociedade é fechar os olhos para as influências biológicas, igualmente essenciais nas nossas atitudes. Opa, vamos aqui desculpar os estupradores, como se fossem eles vítimas de seus cérebros e hormônios masculinos? Evidente que não. Mas por que mesmo numa cultura machista, leniente com o comportamento sexual agressivo, são poucos os estupradores? Óbvio – a não ser para sociólogos emburrecidos pelo radicalismo – que fatores como personalidade, temperamento, impulsividade e mesmo agressividade variam de pessoa para pessoa tanto quanto altura, cor da pele ou inteligência, influenciados em grande parte por componentes biológicos. Algumas pessoas, independente da cultura em que estiverem, terão sempre uma resposta sexual excessiva, com risco de agressividade dependendo das circunstâncias.

Deixe-me colocar de outra forma. Do ponto de vista do ambiente cultural, pode ser pequena a diferença entre assobiar para uma mulher na rua e estuprar uma menina. Mas do ponto de vista biológico pode ser enorme a diferença entre o sujeito que assobia e o que estupra. Se continuarmos escolhendo qual das linhas é a fonte exclusiva da verdade estamos condenados a não compreender o problema em sua complexidade. Uns insistirão que não há nada para mudar em nossas atitudes, porque a culpa do estupro é do estuprador, perpetuando assim uma cultura machista e danosa. E os estupros continuarão ocorrendo. E outros perseguirão a utopia de um mundo em que mulheres tenham o direito de ficar nuas  sozinhas no apartamento de um bando de homens bêbados sem que nada de mal lhes aconteça. E os estupros continuarão ocorrendo.