Às vezes eu sinto que devia mudar de assunto, não insistir mais em algumas mensagens sobre as quais já falei demais. Será que o recado não foi dado? As pessoas não se cansaram de ouvir as mesmas coisas? Pois recentemente estava assistindo com minha esposa o documentário Gênio diabólico, produção original da Netflix, e descobri que alguns assuntos provavelmente me acompanharão para sempre. Voltar aos mesmos tópicos, ainda que variando as abordagens, ajuda as pessoas a compreender melhor e a sedimentar alguns conceitos.

O documentário conta a história de um crime cheio de mistério: em 2003 um entregador de pizza entrou num banco na cidade de Erie, Pensilvânia, e mostrou um bilhete à funcionária dizendo que tinha uma bomba presa a seu pescoço que explodiria se ela não lhe desse duzentos e cinquenta mil dólares. Após conseguir uma parcela ínfima dessa quantia, o homem saiu da agência para pouco depois ser cercado por policiais. Ele dizia ter que seguir as instruções sob risco de ter a cabeça lançada aos ares. A cada novo ponto em que chegasse receberia novas pistas, como numa caça ao tesouro macabra. Sem entrar em detalhes, posso dizer que as coisas não evoluem como esperado, levando a uma investigação criminal envolvendo pessoas que mais parecem personagens de filme B, envolvidos em circunstâncias que nenhum roteirista arriscaria propor para não perder a verossimilhança.

A protagonista do documentário é Marjorie Diehl-Armstrong, uma das suspeitas de envolvimento no crime (e em vários outros, como descobriremos), com quem um dos produtores passou anos se correspondendo. Os depoimentos de quem conviveu com ela atestam um comportamento impulsivo, errático e mesmo desumano. Embora o filme não chegue a tanto, arrisco dizer que não seria impossível diagnosticar nela um transtorno de personalidade grave, antissocial e talvez até mesmo psicopatia – e olhe que eu sou um dos maiores críticos à banalização desse diagnóstico. Ela sabidamente sofria de transtorno bipolar e aparentemente não fazia tratamento regular – o que de forma alguma explica os atos que lhe são atribuídos.

Minha esposa ficou surpresa com as características de Diehl-Armstrong – “Não são sempre homens que são assim?” perguntou. Ela ficou espantada quando esclareci que embora a maioria absoluta dos crimes seja cometida por homens, tanto o transtorno de personalidade antissocial como sua forma extrema, a psicopatia, atingem os dois gêneros. A pequena predominância de tais diagnósticos no sexo masculino não explica essa diferença na criminalidade: são muitos os fatores envolvidos, sociais, culturais, questões de gênero. Os traços de temperamento e caráter são apenas uns dentre eles, longe de serem determinantes para a prática de crimes. A opção dos diretores por não entrevistar psicólogos ou psiquiatras para o documentário é acertada na medida em que evita a tentação de explicar um crime inexplicável.

Eu falo isso dia sim, outro também. Criminalidade não tem a ver com psiquiatria. Maldade não é doença. Pessoas com transtornos mentais não são ameaçadoras. Tudo isso minha esposa já sabia de tanto me ouvir. Mas discutir esse seriado trouxe-lhe uma nova dimensão do problema: agora, além de saber que não é só a personalidade que leva ao crime ficou claro que as questões de gênero, tão dependentes da cultura, são também muito importantes.

Fico mais tranquilo com minhas repetições. Voltarei então ao tema – várias e várias vezes. Porque agora sei que em algumas ocasiões alcançarei novas pessoas. Em outras as pessoas alcançarão novas compreensões.

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Leitura mental

Dois lançamentos podem interessar ao leitor que quer se aprofundar no tema da psicopatia ou nos aspectos multidisciplinares da criminalidade.

Unindo as competências de cientista e escritor, o psicólogo inglês Kevin Dutton mostra como a maioria de nós se encontra num meio termo entre os extremos de bondade e maldade. Em A sabedoria dos psicopatas : O que santos, espiões e serial killers podem nos ensinar sobre o sucesso (Record, 2018), Dutton estuda personalidades que vão do apóstolo Paulo até condenados ao sistema correcional inglês para ressaltar que características de temperamento não são defeitos ou qualidades – depende de como as utilizamos. Para se tornar matador de aluguel a pessoa tem que ser fria? Sim, mas para ser cirurgião de emergência também. Influenciar os outros é característica de um bom líder, mas pode se tornar manipulação num estelionatário. Entre anjos e demônios, provavelmente a posição mais útil se encontra no meio do caminho.

Já em História dos crimes e da violência no Brasil (Editora Unesp, 2017), as historiadoras Mary del Priore e Angélica Müller reuniram diversos pesquisadores de áreas como Psicologia, Direito, Sociologia e até Educação Física – além, claro, de História – para escrever sobre a presença aparentemente entranhada do crime e da violência em nossa formação. Os capítulos são temáticos e  analisam questões tão diferentes – e tão próximas – como a presença do criminoso no universo ficcional e jornalístico brasileiro, a violência nos espetáculos esportivos do século XIX, crimes ocorridos durante a Guerra do Paraguai ou a violência dos missionários portugueses. Nossa sociedade é violenta de várias formas. Compreender como chegamos aqui talvez lance alguma luz em como poderemos sair desse lugar.