Imagine que você tivesse que projetar um sistema para monitorar o ambiente, mas não tivesse todo espaço do mundo para armazenar as imagens, sons, dados em geral. O que seria mais importante registrar: as muitas horas em que nada acontece ou os poucos segundos em que ocorre algo diferente? Provavelmente o mais relevante para o controle do entorno é gravar o inesperado, improvável, juntando todas as outras horas de pasmaceira num grande bloco, poupando espaço e energia.

É assim que funciona a nossa memória. A mesmice do cotidiano muitas vezes mal é notada, que dirá registrada. Mas quando algo novo ocorre capta imediatamente nossa atenção. É a velha história de você não lembrar a roupa que usou ontem mas não esquecer o traje que escolheu para a última festa em que esteve. Essa otimização permite ao cérebro lidar com a infinidade de informações do mundo, mas vem com um preço. Quando temos que prever um evento, estimar uma probabilidade, imaginar riscos, usamos para isso os cenários disponíveis na memória. E como temos muito mais informação sobre o que é improvável do que sobre o comum, geralmente superestimamos tanto aspectos positivos (“Acho que o evento será maravilhoso”) quanto negativos (“Temo por uma catástrofe nesse dia”).

Assim, quando uma tragédia como o massacre na catedral de Campinas acontece, a mídia passa a noticiar o evento – raríssimo em sua natureza – justamente porque essa raridade é excelente para captar nossa atenção, ativo mais desejado por qualquer veículo de comunicação. Sobretudo por ser uma notícia com alto impacto emocional, a chance de viralizar e fazer crescer a audiência é enorme. Um estudo norte-americano levantou o comportamento dos veículos na cobertura de homicídios em massa durante vinte anos, concluindo que as chances de as notícias serem alçadas à rede nacional eram maiores quanto maior o número de mortos, se fossem desconhecidos do criminoso, em local público ou de trabalho, com armas pesadas ou que envolvessem crimes de ódio. Ou seja, quanto mais raros ou emocionalmente carregados, mais chance de ganharem as manchetes principais.

O problema é que a maior parte desses crimes são, na verdade, formas de suicídio. Quase sempre o autor se coloca em posição de ser morto ou se mata no fim da ação, permitindo afirmar que morrer era a intenção desde o começo. E a mídia, sempre tão cautelosa para tratar do tema suicídio, não nota que é esse o caso e rasga a cartilha que sugere evitar cobertura sensacionalista, não enfatizar os meios ou motivações, fugir de detalhes, fazendo tudo ao contrário. Resultado: aumento no caso de suicídios seguidos às coberturas intensas desses crimes, como foi comprovado por outro estudo.

Todo mundo fica curioso diante de uma notícia tão extrema. As perguntas de sempre se repetem: quem? Por quê? Como? É mais do legítimo que a imprensa busque respondê-las. Mas é fundamental que as redações saibam que a cobertura desses casos deveria receber os mesmos cuidados que recebem os casos de suicídio. Não esmiuçar a maneira que o crime foi cometido; não dar detalhes gráficos; não explicitar as minúcias do método; não enfatizar a violência associada. E sobretudo, não tentar explicar por razões simplistas – cada vez que dizemos que alguém se matou porque X, outras pessoas que estejam passando por X passam a contemplar o suicídio como uma saída.

É preciso que as pessoas saibam que sempre pode haver alternativas que elas ainda não viram. Fundamental é aproveitar esses ganchos para divulgar serviços de aconselhamento em crises, como o CVV, estimular a busca por profissionais de saúde mental, combater o estigma que cerca a psiquiatria e a psicologia.

Porque onde há vida, há esperança.

 

Duwe G. Body-Count Journalism The Presentation of Mass Murder in the News Media. Homicide Studies. (2000) Vol 4 (4).

Stack S. The effect of publicized mass murders and murder-suicides on lethal violence, 1968-1980. A research note. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol. 1989 Jul;24(4):202-8. 

***

Leitura mental

Por que será que é tão difícil encontrar terrenos comuns em questões morais, diferenciando certo e errado? O que parece absurdo para alguns é absolutamente natural para outros. O que eu vejo como virtude você chama de vício. Será que se desvendarmos os mecanismos que nos levam a nossas conclusões morais poderemos avançar nesses debates que parecem infindáveis? O psicólogo e neurocientistas Joshua Greene vai atrás dessa resposta no livro Tribos morais : A tragédia da moralidade do senso comum (Record, 2018). Greene vem transformando nossa visão sobre a moralidade ao refletir – a partir de sua enorme bagagem filosófica – sobre os achados de seus estudos com ressonância magnética cerebral de voluntários tentando resolver dilemas éticos. Para ele, temos duas formas de diferenciar certo e errado – uma intuitiva, emocional, e uma reflexiva, lógica. O duro é saber quando usar uma ou outra.