Redução da maioridade penal, liberação das drogas, cotas nas universidades, construção da usina de Belo Monte – esses tópicos têm pelo menos duas coisas em comum: mobilizam debates acalorados e são temas sobre os quais eu não tenho opinião formada. Bem inútil um artigo tratando de polêmicas sobre as quais o articulista não se posiciona, não é? Mesmo assim há um bom motivo para pensar no assunto.

Até quase o fim do século XX acreditava-se que nossas opiniões sobre o certo e o errado, o justo e o injusto, o moral ou o imoral, eram fruto da nossa razão. Após pensar na questão, considerando prós e contras, pesando bem os argumentos de parte a parte, decidiríamos que partido tomar. No entanto, mais recentemente as pesquisas em neurociências cognitivas têm resgatado a teoria dos sentimentos morais do filósofo escocês David Hume, que em seu Tratado da Natureza Humana, de 1739, afirmava: “Tome qualquer ação conhecida por ser cruel: assassinato premeditado, por exemplo. Examine-o de todas as formas e veja se consegue encontrar a realidade do fato ou a existência real do que se chama marginalidade… O leitor poderá nunca achá-la até que a sua reflexão transforme-se em algo pessoal e se depare com um sentimento de desaprovação, que se instaura em você em relação a essa ação. Aqui está a realidade do fato, mas é um objeto do sentimento, não da razão”. Nosso julgamento moral seria então consequência de nossas respostas afetivas ao tema: normalmente nós sentimos de forma imediata se algo é errado, injusto ou imoral, e a partir daí construímos nossa opinião.

Uma das hipóteses mais aceitas atualmente é a do mecanismo duplo de processamento, segundo a qual existe sim um raciocínio moral, mas ele funciona quase como um advogado da intuição: diante de um tema qualquer, em primeiro lugar nós reagimos emocionalmente, o que gera a intuição sobre a moralidade do fato. Depois disso, o raciocínio começa a entrar em cena, mas apenas para tentar sustentar com argumentos racionais aquilo que já decidimos. É por isso que fica tão difícil tentar conversar civilizadamente sobre coisas como maioridade penal, cotas etc.: na maioria das vezes as pessoas já têm suas posições firmadas, e tendem a aceitar de forma acrítica argumentos a favor de suas opiniões, desqualificando qualquer outra argumentação, sem sequer ouvi-la realmente. Estudos mostram que a maioria de nós age intuitivamente como advogados, não como cientistas – em vez analisar de forma isenta as evidências, escolhemos aquelas que sustam nossas ideias e descartamos as que nos contrariam.

Pode ser um vício de cientista, ou talvez apenas minha mania de ser do contra, mas o fato é que, em alguns temas relevantes para o país, como os citados acima, minha intuição ficou muda. Por um lado é ruim, porque até agora não consegui descer do muro. Mas por outro pode ser bom, pois isso me permite tentar examinar os argumentos de maneira fria, buscando tomar decisões mais racionais.

Quem sabe quando os defensores de cada um dos lados abrandarem o tom e tentarem conversar, em vez de brigar, nós vejamos surgir argumentos mais consistentes.

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Haidt, J. (2001). The emotional dog and its rational tail: A social intuitionist approach to moral judgment. Psychological Review, 108 (4), 814-834 DOI: 10.1037/0033-295X.108.4.814