Que as escolas de samba se movem perigosamente próximas a uma área de sombras, interagindo com grupos historicamente violentos como as torcidas organizadas, é senso comum. Embora tal fato não seja a causa dos tumultos ocorridos durante a apuração dos desfiles paulistanos, essa vizinhança pode ter potencializado o desdobrar dos acontecimentos.

O estudo formal do comportamento das massas teve seu início em meados do século XIX, justamente pela necessidade de as elites da Europa tentarem entender – e prevenir – os movimentos revolucionários da patuleia. À época, contudo, o pensamento científico era ainda contaminado por uma grande carga de preconceito, marcado por ideias como antropologia racial, atavismo dos instintos e criminosos biológicos. Durante muito tempo acreditou-se que a violência das multidões era consequência da degeneração de pessoas inferiores que perdiam sua individualidade nos tumultos – as massas seriam, portanto, irracionais, exibindo comportamentos sem qualquer sentido.

A partir do século XX, especialmente após os anos 60 – quando muitos dos cientistas sociais que estudavam os fenômenos das multidões acabaram tomando parte, eles mesmos, de passeatas contra a Guerra do Vietnã ou pelos direitos civis das minorias – o pensamento sobre as massas foi sendo gradualmente transformado, sobretudo em termos de sua racionalidade: diante do novo contexto já não era possível sustentar que as multidões eram acéfalas e incoerentes. O comportamento dos grupos passou a ser analisado em termos das relações intergrupos e dos contextos políticos e históricos dos indivíduos. De irracionais as multidões passaram a ser vistas como possuidoras de um pensamento, uma racionalidade que surgia não só do pano de fundo das pessoas, mas também da força da identificação entre elas. E o risco de o comportamento do grupo se tornar violento dependeria principalmente de dois fatores: o quanto de legitimidade se confere à polícia e o quanto de poder o grupo vê em si. A atuação policial agressiva poderia gerar um antagonismo na massa, que passaria a medir forças com os soldados.

As imagens dos sujeitos exibindo comportamentos de vandalismo ao longo da Marginal Tietê mesmo escoltados pela polícia pode ser analisada de acordo com esse modelo: as pessoas eram membros de torcidas organizadas, que têm um histórico muito rico de conflitos com a PM – isso lhes confere um senso de identificação interna muito grande, além de minar a legitimidade da atuação da polícia de seu ponto de vista. Além disso, o grande número de torcedores aumenta a sensação de poder na medida em que fica clara a insuficiência do contingente policial para conter seus atos de vandalismo. Com base nesse modelo, algumas experiências feitas na Europa para controlar o comportamento dos hooligans foram bem sucedidas, paradoxalmente, ao reduzir o policiamento ostensivo, marcando a presença do poder do estado mas desestimulando demonstrações de força policial.

Funcionaria para o Brasil? Não sei. Mas se quisermos preservar as imagens das tão decantadas “paixões nacionais” já passou da hora de pensarmos cientificamente na questão das torcidas organizadas, tanto no samba como no futebol.

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Drury, J., & Stott, C. (2011). Contextualising the crowd in contemporary social science Contemporary Social Science, 6 (3), 275-288 DOI: 10.1080/21582041.2011.625626