Casais que não conseguem engravidar e recorrem a clínicas de fertilização podem submeter os embriões produzidos in vitro a exames diagnósticos para selecionar quais implantar – ou não – no útero. Se por si só esse procedimento levanta algumas questões éticas, imagine saber que ele é utilizado às vezes para escolher justamente embriões que apresentem deficiências. Pais com determinados problemas que não querem ter filhos distantes de seu mundo eventualmente optam por ter filhos com as mesmas deficiências que eles, por estranho que isso nos pareça.

Proibida em alguns países, realizada na surdina em outros, essa prática revela o que Andrew Solomon aponta em seu novo livro, Longe da árvore (Cia das Letras): “Tendo acesso à tecnologia reprodutiva, podemos determinar que tipo de criança nos faria felizes e que tipo de criança nós faríamos feliz. Seria irresponsável evitar essa conjectura, e seria ingênuo supor que ela vai além de uma conjectura”.

Conhecido mundialmente por sua descrição da depressão vista pelo lado de dentro no já clássico “O demônio do meio-dia”, Solomon parte nesse novo livro em busca de compreender a relação entre pais e filhos. E o faz também por uma perspectiva interna, a partir da diferença: os americanos têm um ditado segundo o qual o fruto não cai longe da árvore, referindo-se à semelhança entre os filhos e seus pais. Mas o livro investiga aqueles frutos que caíram longe da árvore, filhos que, sendo de várias maneiras diferentes de seus pais, desafiam-nos a um amor de outra dimensão. Autistas, surdos, esquizofrênicos, gênios, delinquentes, anões, deficientes físicos, transgêneros, crianças concebidas por estupro ou com síndrome de Down, pessoas cujas características principais não são a continuidade visível da geração anterior obrigam seus pais a os amarem apenas pelo que eles são, em vez de amar o que vêm de si mesmos na prole, compreende Solomon.

Os dez temas são tratados mesclando as extensas entrevistas feitas pelo autor com famílias afetadas em diversos graus pelas condições escolhidas e suas próprias digressões, embasadas em pesquisa sólida e profunda. São histórias em que os filhos, em vez de manterem a “identidade vertical”, parecidos com os genitores, desenvolvem “identidades horizontais”, nas quais seus semelhantes não são parentes, mas pessoas com as mesmas deficiências oriundas de outras famílias. São várias as questões postas nessas circunstancias: além do desafio do amor paterno, o problema das minorias volta em todos os capítulos, pondo em cheque os limites que separam uma doença de uma identidade pessoal. Nesta linha deparamo-nos com o paradoxo de oferecer garantias aos deficientes ao mesmo tempo em que se aceitamos plenamente suas características – paradoxo porque, retirando-lhes o estatuto de diferentes, como garantir-lhes privilégios? E mantendo os privilégios, como integrá-los plenamente? Os insights do autor sobre tais problemas marcam mais presença no primeiro e último capítulo, centrados menos nas reportagens do que no ensaio, refletindo as conclusões de quem durante ao menos dez anos debruçou-se sobre o tema. Quando discorre sobre sua experiência como filho, disléxico e homossexual, e posteriormente como pai num casamento gay, Solomon entremeia a reflexão sobre suas vivências com relatos de pessoas lançadas em situações extremas as mais diversas.

Pode-se perguntar por quê esses casos “excepcionais” interessam a todos. A resposta é fácil. Em primeiro lugar porque a exceção é a regra para quem se dispõe a prestar um pouco de atenção à sua volta. Mas além disso, à maneira dos neurologistas que examinam patologias específicas para elucidar o funcionamento do cérebro normal, Solomon consegue lançar luz sobre a natureza de todo relacionamento pai-filho ao se voltar para relações tão especiais entre cria e criador.