Você já voou de balão? Lembra-se desse passeio quando era pequeno? Tem certeza? E se eu mostrar fotos suas, ainda criança, passeando num balão, será que lembraria?

Nossa memória é cercada de mitos. Ao contrário do que imaginamos, ela não é uma filmadora, que grava tudo para reproduzir mais tarde. Ela se estrutura mais como uma teia de relações: conforme as experiências acontecem o cérebro vai associando os elementos gerais, cheiros, sons, imagens, palavras. A partir daí, quando um dado vem à consciência ou são rememorados. É assim que o cérebro resgata as informações: quando você quer lembrar o número do telefone de alguém, lembra da pessoa, das vezes em que ligou para ela, da figura dos números etc. Lembrar é ativar determinada rede de relações: cada vez que recordamos de algo o cérebro reativa associações, reencenando o evento como se o estivesse vivenciando. E nesse processo erros podem acontecer, dando lugar à ocorrência das falsas memórias. A pergunta sobre o voo de balão não é casual – esse foi um dos experimentos seminais no estudo das falsas memórias: adultos que nunca haviam tido essa experiência foram apresentados a quatro fotos de sua infância, três reais e uma manipulada com photoshop, inserindo-o num balão. Após examinar as fotos nada menos do que metade das pessoas lembraram total ou parcialmente desse passeio que nunca acontecera. E ficaram assustadas ao saber que era mentira.

No filme O vendedor de passados, em cartaz desde semana passada, o personagem Vicente (Lázaro Ramos) explora esse bug de nosso cérebro para criar um negócio lucrativo: ele literalmente vende passados. Usa a tecnologia de manipulação de imagens para criar álbuns de fotos, filmes caseiros, narrativas estruturadas sobre um passado que não existiu, entregando aos seus clientes recordações ao gosto do freguês. É de se pensar se após olhar aqueles álbuns repetidamente, de assistir as cenas de uma infância idealizada vezes a fio, de voluntariamente misturar suas recordações aos elementos artificialmente inseridos o sujeito realmente não acabaria confundido realidade e ficção. Se para o cérebro as atividades de vivenciar e recordar são tão semelhantes, não é impossível imaginar que no fim das contas a pessoa acabe acreditando no que comprou. Será que você acreditaria?

Além de predisposições individuais, existem elementos externos que favorecem a ocorrência das falsas memórias. Um estudo publicado esse ano mostrou que usuários de maconha têm mais facilidade de serem enganados por elas. O experimento é engenhoso: os cientistas apresentam uma séria de palavras relacionadas entre si para os voluntários. Posteriormente perguntam se determinadas palavras estavam ou não na lista, incluindo algumas que, apesar de semelhantes, não faziam parte do conjunto original. Pessoas que usavam maconha, mesmo estando abstinentes, cometeram 50% a mais de erros do que os outros. As imagens de ressonância magnética mostro que seus cérebros tinham menor ativação das áreas ligadas à memória (lobos temporais) e à atenção (lobos frontais), que explicaria os resultados.

Usando maconha ou não, contudo, ninguém está livre desse risco. E o filme coloca bem a questão: se nós somos aquilo de que lembramos, e podemos tão facilmente mudar nossas recordações, quem somos nós?

(Ouça a coluna Ideias no Ar, da Rádio Estadão, sobre esse tema)

ResearchBlogging.org
Wade, K., Garry, M., Don Read, J., & Lindsay, D. (2002). A picture is worth a thousand lies: Using false photographs to create false childhood memories Psychonomic Bulletin & Review, 9 (3), 597-603 DOI: 10.3758/BF03196318
Riba J, Valle M, Sampedro F, Rodríguez-Pujadas A, Martínez-Horta S, Kulisevsky J, & Rodríguez-Fornells A (2015). Telling true from false: cannabis users show increased susceptibility to false memories. Molecular psychiatry, 20 (6), 772-7 PMID: 25824306