Como a maioria silenciosa dos brasileiros eu passei um bom tempo me abstendo de entrar em debates políticos em minhas redes sociais. No entanto, assim como é fácil resistir ao brigadeiro quando só tem um (basta esperar uns segundos que alguém logo o pega)  mas é duro se segurar quando a bandeja passa dezenas de vezes na sua frente, depois de tantas e tantas mensagens enaltecendo ou depreciando candidato A ou B, defendendo ideias opostas e, principalmente, desqualificando opositores, caí na tentação. E como numa rampa escorregadia, foi só colocar o pé na pontinha para me ver, de repente, entrando em debates acalorados.

Felizmente consegui refrear meus impulsos a tempo, e tirei uma lição sobre como não passar raiva com política.

Em muitas classificações a raiva é dada como uma emoção básica – instintiva de alguma forma, independente de aprendizado cultural. Mas na prática, quando ela ocorre é resultado de um amálgama de sensações, pensamentos e vivências. Ela traduz a certeza de que algo não é como deveria ser, além da convicção de que existe alguém responsável por tal erro. Mais: esse alguém poderia – se quisesse – corrigir a situação. E, claro, essas sensações são desagradáveis, por isso queremos nos livrar dela. Como? Obrigando o tal responsável a desfazer esse descompasso entre o que esperávamos que fosse o que é.

É por isso que a raiva nas discussões políticas – a raiva amadora, entre amigos, familiares, não a profissional que lucra com o ódio – acontece quando há divergência. Tanto maior a raiva quando maior a divergência. Porque parece inacreditável que um amigo, um parente, tão querido e estimado, sustente uma crença tão diferente da nossa. Essa surpresa negativa nos leva a querer corrigir o rumo das coisas, e insistimos – com crescente veemência – em argumentos que levem-no a compreender seu erro para corrigi-lo. Só esquecemos que do lado de lá tem alguém passando exatamente pela mesma experiência. Sua indignação com o voto de seu namorado no Bolsonaro tem a mesma intensidade da indignação dele com seu voto na Marina. E ele também aumenta o tom na tentativa de te fazer finalmente entender esse absurdo.

Como hostilidade gera hostilidade, a conversa vira discussão, que se torna briga e daí para batalha campal é um pulo. E pior ainda, conforme a raiva cresce a racionalidade diminui – ou seja, quanto mais gritamos menos somos ouvidos.

A lição é um tanto óbvia, eu sei. Mas o único jeito de não passar raiva com a política é abandonar totalmente a perspectiva de convencer o outro de qualquer coisa. E lembrar que assim como você, ele também acha absurdo seu ponto do vista.

Quem sabe se percebermos que estamos todos no mesmo barco, defendendo posições indefensáveis a depender de onde se olhe, consigamos abandonar a raiva e voltar a conversar. Ou no mínimo a conviver.

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Leitura mental

Colaborar é uma opção, consciente e deliberada, não é um caminho natural nem que possa ser imposto. Às vezes, dependendo da circunstância ou do grau de divergência, esperar concordância pode ser até contraprodutivo. Em Trabalhando com o inimigo : como colaborar com pessoas das quais você discorda, não gosta ou desconfia (editora Senac, 2018), o estrategista Adam Kahene desfaz  mitos sobre o trabalho e convívio em equipe, amplia nossa visão de colaboração aa apresentar os pilares do que chama de colaboração estendida. Em primeiro lugar é preciso entender que outras visões de mundo são possíveis – podem não ser a sua, mas não dá para chamar de ignorante todos os que a adotam; também é preciso por as coisas em prática – há muitas teorias em questão, mas vamos experimentar o que funciona em vez de debater para buscar um acordo impossível entre as ideias; finalmente, isso só é possível se tivermos coragem de examinar a percepção que temos tanto de nós como dos opositores. Um livro para nossos dias.