“Não pode elogiar que estraga”.

Provavelmente você já ouviu – ou disse – essa frase, muita usada quando alguém faz algo bom mas, após ser elogiado por isso, deixa de agir de forma, digamos, “elogiável”. Mas será verdade? Sabendo que reforços positivos muito influentes em nossos comportamentos – até mais do que as punições – essa sentença parecer equivocada. No entanto ela traduz algo de importante.

Há alguns anos uma pesquisa investigando o efeito dos elogios nas crianças fez muito sucesso ao apresentar resultados bastante contra-intuitivos para a indústria dos feedbacks positivos. Funcionava assim: centenas de crianças entre 10 e 12 anos foram convidadas a realizar alguns testes, semelhantes a quebra-cabeças. Após a correção dos testes elas eram informadas que haviam acertado 80% das questões, mas enquanto uma parte era elogiada por sua habilidade (Puxa, você deve ser muito inteligente para acertar tanto), outra parte recebia elogios por seu esforço (Puxa, você deve ter se esforçado bastante para acertar tanto), havendo também um grupo controle, que só recebia o bom resultado.

Muitas consequências vieram dessa simples frase. Quando ofereciam para que elas resolvessem novos problemas, fáceis, mas que não seriam muito instrutivos, ou difíceis, que tinham algo a ensinar mesmo para quem errasse, 67% das “inteligentes” escolheram o fácil, e 92% das “esforçadas” o difícil. Num teste seguinte em que não iam bem, as primeiras atribuíam seu mau resultado à pouca habilidade para resolvê-los, as segundas diziam que não se esforçaram o suficiente. E não parou por aí: se perguntavam para elas como tinham ido nos testes, aquelas que receberam elogio pela performance mentiu quatro vezes mais as notas do que as que aprenderam que o mérito estava no esforço. E como se não bastasse, nos retestes, as crianças elogiadas pelo esforço superaram seus scores anteriores, ao contrário das elogiadas pela inteligência.

Se você acha que isso só acontece com crianças, acaba de ser publicada uma

Documento

mostrando que a produtividade acadêmica de cientistas que recebem a Medalha Fields – o equivalente a um prêmio Nobel para matemáticos com menos de 40 anos – despenca depois do prêmio, enquanto a dos colegas de mesma idade não premiados aumenta. Pelo menos 50% desse declínio, conclui a pesquisa, se dá por mecanismos semelhantes os que ocorrem nas crianças.

Claro que elogios e prêmios não são ruins. Mas se apontados para o lado errado podem ser muito perigosos.

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Mueller CM, & Dweck CS (1998). Praise for intelligence can undermine children’s motivation and performance. Journal of personality and social psychology, 75 (1), 33-52 PMID: 9686450