Em suas viagens pelo Universo, o Pequeno Príncipe certa vez conheceu um rei que nunca, nunca era desobedecido. O seu método, consciente ou não, era simples: ele só dava ordens que os outros queriam cumprir. “Posso sentar-me?” indaga o príncipe. “Ordeno-te que sente”, responde o rei, prontamente obedecido. Maravilhado com tanto poder o Pequeno Príncipe pede que ele ordene ao sol que se ponha, pois gostaria de assistir a um pôr-do-sol. “Teu pôr-do-sol, tu o terás. Eu o exigirei. (…) Será lá por volta de… por volta de sete horas e quarenta, esta noite. E tu verás como sou bem
obedecido”.

Essa estratégia do iludido rei imaginado por Saint-Exupéry pode ser bastante útil para algumas mudanças de comportamento. Dando continuidade à série da coluna Ideias no Ar, da Rádio Estadão, sobre resoluções de ano novo, claro que o mais fácil seria decidir comer mais (e pior), economizar menos dinheiro ou exercitar-se menos. Poderíamos ainda fazer como Hagar o Horrível, que diante do ceticismo de Helga, sua esposa, que reclama que ele nunca cumpre suas promessas de ano novo, promete algo que irá cumprir com certeza: resolve nunca mais fazer resoluções de ano novo. É evidente que aí elas não têm sentido algum, uma vez que não mudariam nada ou mudariam para pior.

Mas podemos nos inspirar no rei mandão analisando as motivações para as promessas que fazemos. Ele sempre era obedecido porque mandava que os outros fizessem algo que queriam. Já nós, se estamos prometendo mudar um hábito, provavelmente é porque não queremos muito fazer diferente (se não seria desnecessário prometer). Apesar disso, mesmo se a vontade imediata é manter o padrão (o sedentarismo, por exemplo), por trás de toda resolução de ano novo há ao menos um desejo – menos imediato, mais racional – de modificação. O truque é analisar – e manipular – esse desejo.

Existem quatro categorias possíveis de motivação:

1 – Externa – eu quero fazer isso porque todo mundo acha importante e ficam me cobrando.
2 – Interna – eu quero fazer isso porque senão fico me sentindo culpado.
3 – Identificada – eu quero fazer isso porque eu entendi a importância, e me convenci dela.
4 – Intrínseca – eu quero fazer isso porque gosto, me dará prazer, será bom alcançar o objetivo.

É quase óbvio que as pessoas com as duas últimas motivações obtêm muito mais sucesso em alcançar suas metas do que as nos primeiros grupos. Existem muitos obstáculos quando queremos mudar hábitos antigos e criar novos – tentações, pretextos, preguiça, e tudo pode ser empecilho quando a motivação não é forte o bastante. Por isso a dica é: pense bem antes de fazer uma resolução de ano novo, analisando o porquê dessa decisão. Você realmente acha importante, ou só quer tentar aquilo por conta dos outros? Se, dentre tantas coisas que podemos mudar, conseguirmos encontrar aquelas que nos trazem satisfação real, podemos escolher objetivos que tenhamos mais chances de cumprir.

Afinal, como disse o rei para o Pequeno Príncipe, “É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A autoridade repousa sobre a razão. (…) Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.”

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Koestner R, Lekes N, Powers TA, Chicoine E. (2002). Attaining personal goals: self-concordance plus implementation intentions equals success.
J Pers Soc Psychol., 83 (1), 231-244 DOI: 10.1037/0022-3514.83.1.231