Não sei a sua, mas a minha rotina é cheia de tarefas chatas a serem cumpridas, sem as quais a vida não para em pé, mas que por si só não me trazem qualquer prazer. Embora a tecnologia venha nos livrando cada vez mais de inconvenientes como ir ao banco, repor despensa ou ir ao correio, há coisas que resistem, como levar o carro para revisão, ligar para a operadora de celular, mandar consertar eletrodomésticos e por aí vai. Com a escassez de horas no dia cada tarefa dessas que aparece na lista de afazeres traz a sensação de perda de tempo, de correria, falta de controle sobre a agenda.

O engenheiro de software Rob Rhinehart encontrou uma solução radical para algo que considerava aborrecido e dispendioso: preparar as refeições – e comê-las. Numa época em que ele e dois sócios tinham poucos recursos para sua startup, ele resolveu poupar tempo e dinheiro cortando na carne, quase literalmente. Desenvolveu uma espécie de shake reunindo – ao menos em teoria – todos os nutrientes, vitaminas, calorias e fibras, necessários para o organismo humano. Daí viria a nascer o Soylent, produto que se propõe a substituir a dispendiosa tarefa de comer. O interessante é que, ainda nas fases de testes, o crowdfounding feito por Rhinehart arrecadou um milhão e meio de dólares. Parece que bastante gente perde mais tempo do que gostaria com as refeições.

No mês passado foi publicado um estudo mostrando que, de fato, tarefas repetitivas não prazerosas roubam qualidade de vida. Pode não parecer nenhuma grande novidade, mas o foco da pesquisa era outro: será que gastar dinheiro para poupar tempo seria uma solução? Mais de seis mil adultos nos EUA, Canadá, Dinamarca e Holanda foram entrevistados sobre sua renda, sua satisfação com a vida e quanto dinheiro gastavam para terceirizar afazeres tediosos. Os resultados mostraram que pouca gente – só um terço – gastava os recursos financeiros para poupar os temporais, mas os índices de satisfação com a vida daqueles que assim faziam eram significativamente maiores. Não que eles sentissem que lhes sobrava tempo, mas o estresse por sua falta não lhes trazia impacto negativo. Comprar tempo não nos deixa necessariamente livres, com tempo de sobra, mas nos permite escolher onde gastá-lo. Ou pelo menos onde não gastá-lo, dando maior sensação de controle sobre a agenda. Um claro ganho de bem-estar.

Os cientistas tiveram o cuidado de controlar variáveis como renda total, e até mesmo quantidade de dinheiro gasto com mercado, verificando que os benefícios se mantinham em todas as faixas de renda e níveis de gastos com bens de consumo imediato. E para ter certeza ainda deram quarenta dólares por semana, durante duas semanas, para sessenta homens em Vancouver. Na primeira semana, metade deles deveria gastar o dinheiro comprando tempo, metade comprando coisas. Na segunda semana invertiam-se os grupos. As hipóteses foram confirmadas: quando eles recebiam ligações no final do dia para saber como estavam se sentindo, os que compraram tempo invariavelmente tinham melhor disposição do humor. Mas cuidado: terceirizar demais pode ter efeitos contrários. A pesquisa indica que quando se gasta demais com isso a qualidade de vida volta a cair.

É como no caso da gororoba criada por Rob Rhinehart. Sim, ela poupa tempo e dinheiro. Mas imagine que insuportável seria viver só a base de Soylent, sem lasanha, churrasco, arroz com ovo. A vida é assim: um pouco de trabalho às vezes é o preço do prazer.

 

Whillans AV, Dunn EW, Smeets P, Bekkers R, Norton MI. Buying time promotes happiness. Proc Natl Acad Sci U S A. 2017 Aug 8;114(32):8523-8527.

 

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Leitura mental

Quando eu havia acabado a residência em psiquiatria e estava no começo da faculdade de filosofia, o Sesc trouxe ao Brasil o psiquiatra e filósofo Mauro Maldonato. Eu sinceramente não lembro nada da palestra, mas simplesmente conhecê-lo foi fundamental para que eu visse ali a possibilidade de aliar psiquiatria, filosofia e comunicação com o público. Agora ele voltou ao país para lançar seu novo livro, Na hora da decisão – somos sujeitos conscientes ou máquinas biológicas? (Edições Sesc, 2017). Maldonato investiga o mistério da consciência humana, colocando em xeque tanto os velhos paradigmas da psicanálise como a crença cega nas neurociências, apontando para o universo que se desdobra em nossa mente sem que dele tenhamos consciência. Essa aliás, só seria convocada quando a decisão é importante demais – no restante do tempo, seria nas profundezas que nossas decisões seriam tomadas. Nos ensaios que compõe o livro, ricos em frases que mais parecem aforismos – tantas as camadas que trazem – o autor explora as implicações disso para a moral, a ética e até mesmo para a responsabilidade penal.