Você deve ter visto por aí a comparação entre o quanto custam cem gramas de chocolate quando vendidas em uma barra comum e quando em formato de ovo, não é? A diferença é gritante – o ovo de páscoa chega a ser quase dez vezes mais caro do que o mesmo chocolate normal. Não espanta que a gente se empanturre – ficamos com a sensação que temos que fazer valer o investimento.

Mas antes de sair devorando os ovos é bom saber que existem vários mitos que cercam o chocolate. A história de que ele seria rico em serotonina, e portanto uma espécie de antidepressivo natural, por exemplo, não é bem assim. Mesmo a famosa fissura por chocolate que ocorreria na época da tensão pré-menstrual (TPM) em mulheres é bastante questionável.

O que sabemos é que o prazer que o chocolate traz pode ser capaz de aliviar emoções negativas, mas não por conta de qualquer efeito psicofarmacológico, mas sim por ser gostoso. Tanto que pesquisas compararam a melhora no humor em pessoas que comiam chocolates saborosos ou ruins (mas em tudo o mais idênticos), descobrindo que só o gostoso é que tinha algum efeito. Ainda assim, o conforto emocional que o chocolate traz é transitório, durando apenas uns três minutos. Por isso mesmo seu consumi-lo como estratégia de alívio emocional tende a perpetuar o problema, em vez de aliviá-lo. Pessoas com sinais de depressão, mas ainda sem tratamento, consomem mais do que o dobro de chocolate do que as pessoas sem sintomas.

A loucura por chocolate que muitas mulheres relatam na TPM, portanto, tem raízes muito menos biológicas do que podemos imaginar. Só para dar uma ideia do nível de influência cultural, enquanto quase 60% das mulheres americanas relatam esse desejo, só 24% das espanholas contam a mesma experiência. Mas quando se pediu para as americanas anotarem o desejo por chocolate num diário, a porcentagem de mulheres que realmente apresentaram a tal fissura caiu para menos de um terço delas.

Nada contra o consumo de chocolate, seja em fase for do mês, e no mês que for do ano. Mas acreditar que ele é uma maneira eficaz de melhorar o humor é um tiro que acaba saindo pela culatra.

 

Macht M, Mueller J. Immediate effects of chocolate on experimentally induced mood states. Appetite. 2007 Nov;49(3):667-74.

Parker G, Parker I, Brotchie H. Mood state effects of chocolate. J Affect Disord. 2006 Jun;92(2-3):149-59.

Rose N, Koperski S, Golomb BA. Mood food: chocolate and depressive symptoms in a cross-sectional analysis. Arch Intern Med. 2010 Apr 26;170(8):699-703.

Hormes JM, Timko CA. All cravings are not created equal. Correlates of menstrual versus non-cyclic chocolate craving. Appetite. 2011 Aug;57(1):1-5.

Zellner DA1, Garriga-Trillo A, Centeno S, Wadsworth E. Chocolate craving and the menstrual cycle. Appetite. 2004 Feb;42(1):119-21.

 

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Leitura mental

Por falar em comida, prazer e cérebro, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel volta a encantar com o lançamento A vantagem humana – como nosso cérebro se tornou superpoderoso (Cia. das Letras). Como revela o título, a escritora e cientista se propõe a descobrir o que, afinal, colocou os seres humanos em vantagem, dotando nossos cérebros desse tremendo potencial até então desconhecido na natureza. Ela mostra que nossa arquitetura cerebral permitir um empacotamento muito eficiente de células, mas isso não adiantaria muito se não houvesse energia para sustentá-las. Assim, o desenvolvimento da culinária foi fundamental para extrair mais calorias das mesas coisas que os outros animais comiam, o que possibilitou o milagre a multiplicação de neurônios – células que demanda muita energia. Infelizmente nosso consumo de calorias não parou mais de crescer, assim como nossas cinturas (e ao contrário de nossos cérebros).