Sabe a sensação que nós temos de que os jovens estão cada vez mais narcisistas? Se você acha que eles pensam que são o centro do mundo, merecem um troféu por simplesmente por existirem e tratam quem os contraria como vilões, é porque isso realmente está acontecendo. E em grande parte por nossa culpa.

Tudo começou lá pelos anos 70 do século XX, quando o conceito de autoestima se popularizou. Cientes dos problemas causados pela baixa autoestima – como prejuízos de relacionamento, pior desenvolvimento emocional e até risco de doenças como depressão e transtornos ansiosos – resolvemos ajudar as crianças a desenvolverem a sensação de que são valorosas e amadas. Cheios de boas intenções passamos a elogiar os filhos, por vezes exageradamente e, pior, imerecidamente. Os efeitos desse movimento coletivo foram agora comprovados numa pesquisa inédita.

Acompanhando mais de quinhentas crianças entre 7 e 12 anos, por um período de um ano e meio, psicólogos da Holanda mediram, pela primeira vez, o impacto que os elogios exagerados têm nas crianças. Notaram que, quando os pais supervalorizam as crianças, elas começam a acreditar que são especiais, que merecem “algo a mais”, que terão sucesso garantido – independente do esforço. Ou seja, tornam-se pessoas com fortes traços narcisistas. Mas o que é pior: essa técnica é ineficaz. Provavelmente o tiro sai pela culatra, pois quando essas pessoas caem no mundo e percebem que não serão premiadas de graça nem garantirão um lugar privilegiado por serem tão especiais, a frustração pode ser enorme. É praticamente uma bolha especulativa da autoestima: quando o mercado da vida mostra o quanto os valoriza de verdade, a bolha estoura – de forma traumática.

Como então melhorar a autoestima das crianças? Os resultados mostraram que os filhos pais carinhosos, que demonstram afeto genuíno, valorizando e elogiando bons comportamentos, estes tinham boa autoestima. O reforço positivo foi eficaz, sem o efeito colateral de aumentar traços narcísicos.

Portanto, segure o impulso de dizer para seus filhos que eles são especiais. Não são. Filhos são especiais para os pais – para todos os outros eles terão de fazer por merecer.

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ResearchBlogging.org
Brummelman, E., Thomaes, S., Nelemans, S., Orobio de Castro, B., Overbeek, G., & Bushman, B. (2015). Origins of narcissism in children Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.1420870112