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Lição de casa pode ser feita imediatamente, pode ser procrastinada ao máximo ou ficar em algum lugar entre esses extremos. Em que ponto você a colocaria? E o que você acha que seu filho acha que você acha?

Deparei-me com esse dilema esses dias, jogando o excelente jogo Sintonia, lançado no Brasil esse ano pela editora Galápagos. A premissa é simples: um par oposto é apresentado, desde coisas bem objetivas como “Quente x Frio”, “Dividido x Inteiro”, passando por tópicos mais pessoais como “Anos 1980 x Anos 1990”, “Meme engraçado x Meme sem graça”,  até coisas tão subjetivas como “Melhor final de série x Pior final de série” ou “Prova que deuses existem x Prova que deuses não existem”. Esses extremos ficam em lados opostos num mostrador semicircular, a 180 graus de distância. É aí que começa o desafio: o jogador da vez gira um alvo que ficará posicionado aleatoriamente no mostrador – pode ficar perto de um dos extremos; exatamente no meio; um pouco mais para um lado do que para o outro e assim por diante. Sem que seu time possa ver onde está o alvo, o jogador deve dar uma pista que os ajude a localizar sua posição exata entre os opostos.

No exemplo de nossa partida doméstica minha filha tinha que nos ajudar a localizar o alvo entre os extremos “Fazer agora” e “Fazer depois”. Sua pista foi lição de casa. E agora? Não nos bastava imaginar o que ela acha. Mas o que ela acha que nós achamos. Pensando em lição de casa, estaria o alvo mais próximo de “Fazer agora”, como nós sempre estimulamos? Estaria mais perto de “Fazer depois”, como frequentemente acontece? Não acreditávamos que estivesse muito para os extremos, mas onde exatamente?

É significativo que o nome original do jogo seja Wavelenght (comprimento de onda, em inglês), fazendo referência às onda cerebrais detectadas no eletroencefalograma (EEG). De fato um campo de estudo pulsante atual a sincronização inter-cerebral: neurocientistas vêm mostrando que as ondas cerebrais das pessoas que entram em sintonia por alguma razão (ouvindo a mesma música, compartilhando informações) acabam sincronizadas. Pessoas em sintonia (daí o acerto do nome do jogo em português) têm ondas cerebrais em sincronia. Como se não bastasse, o grau de sincronia dos cérebros é capaz de prever o sucesso do trabalho em grupo: neurocientistas da Universidade de Nova York pediram que voluntários se dividissem em grupos de quatro pessoas e resolvessem diversas tarefas de forma cooperativa. Os resultados mostraram que os grupos onde houve maior sincronização cerebral –  medida por EEG – tinham melhores resultados em diversas tarefas [1].

No jogo é possível o grupo discutir entre si, conversar, tecer considerações diversas antes de posicionar um ponteiro onde imagina estar o alvo. Quando mais perto do centro do alvo, mais pontos o time marca. O outro time pode pontuar apostando no erro do outro – e por isso é permitido atrapalhar, tentando criar marola nas ondas cerebrais dos adversários.

Quanto à lição de casa, o que você diria? No fim das contas, após deliberar com meu filho, decidimos arriscar exatamente no meio do caminho: nem fazer já nem deixar para a última hora; colocamos o ponteiro em 90 graus. E acertamos na mosca. Bela sintonia.

Nem sempre sentimos que estamos entrosados com nosso time – seja em casa, no trabalho, no esporte. Mas se focamos no mesmo objetivo, ainda que as estratégias sejam distintas podemos entrar em sintonia – o que, no fundo, é outra forma de dizer que nossas ondas cerebrais entraram em acordo.

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1 – Diego A Reinero, Suzanne Dikker, Jay J Van Bavel, Inter-brain synchrony in teams predicts collective performance, Social Cognitive and Affective Neuroscience, Volume 16, Issue 1-2, January-February 2021, Pages 43–57, https://doi.org/10.1093/scan/nsaa135