Cara Ruth Rocha,

Eu gostaria de agradecê-la.

Recentemente descobri o poder da gratidão. Todo mundo tem pessoas a quem é grato – gente que nos fez bem, que melhorou nossa vida de alguma forma. Apesar disso, nem sempre trazemos à consciência essa gratidão; quando o fazemos, contudo, quando refletimos mais profundamente sobre o porquê de sermos gratos àquelas pessoas, qual foi o bem que elas nos fizeram, como nos ajudaram, levamos essa experiência a outro nível, aumentando a felicidade no mundo.

Resolvi tentar. Gostaria de escrever para pessoas das quais não sou íntimo suficiente para chegar de surpresa, dar um abraço e dizer o que elas representaram na minha vida. Não queria usar esse espaço para agradecer meus pais, minha esposa, minha família ou amigos. Eles são mais do que importantes, mas a eles agradeço – conscientemente -com alguma frequência. (Nem sempre fazemos isso, mas deveríamos). Com esse critério em mente, comecei a fazer algumas listas mentais. E para encurtar história, em todas seu nome encabeçava a lista.

Você foi minha primeira escritora preferida. Eu ainda não sabia que viria a me tornar um escritor quando te conheci, mas lembro até hoje de como me encantava aquilo de uma pessoa criar histórias, brincar com as palavras a seu bel prazer. Não por acaso Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias, editado pelo Círculo do livro, é um dos livros de que mais me lembro (a foto é do meu exemplar original, editado no ano de meu nascimento). Claro que à época não me atentava para isso, mas até então as histórias que eu ouvia davam a impressão de sempre terem existido: contos de fadas, lendas do folclore, histórias bíblicas, nenhuma delas parecia produto do trabalho de alguém. Mas seus livros, ah…, eles mostravam que uma pessoa de verdade podia criar mundos de mentira. Só para dar uma ideia algumas piadas dos livros se tornaram brincadeiras tradicionais em nossa família, e mais trinta depois ainda faço meus filhos pequenos rirem ao dizer, como o Marcelo, que leite é o suco da vaca. Mais de trinta anos depois. E O dono da bola, aquele cautionary tale que mostra como o menino Caloca se dava mal por seu egoísmo? Sua pungência me acompanhou vida afora, influenciando minhas decisões até hoje, em minha vida adulta.

Sabe que eu me peguei pensando se não seria exagero? Será que não me tornei fã quando adulto e projetei na criança que fui essa admiração? Mas lembrei-me de um evento que prova o contrário: em meados dos anos oitenta, 1984, talvez 85, você foi à minha escola dar uma palestra. Estava no início do ensino primário na Fundação Bradesco, em Osasco, e minha mãe, que era professora lá, conseguiu me levar até a sala da diretoria, onde você estava esperando para falar. Eu, com um livro em punho para pegar um autógrafo, senti uma emoção que dá testemunho da verdade de meu relato. Não, não estou edulcorando o passado a partir do presente. Eu já era agradecido – só que àquela época, mais com a emoção do que com a razão.

Agora, de maneira racional, queria agradecer. Obrigado por criar histórias que me cativaram e divertiram. Que me formaram. Histórias que também continham princípios universais e atemporais. Obrigado por nutrir meus pais com piadas que atravessaram (e continuarão atravessando) gerações. Por me apresentar o ofício de escrever. Ah, e obrigado pelo autógrafo!

Um grande, grato e terno abraço!

Daniel

 

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Leitura mental

Ron Suskind é outro pai grato às histórias infantis. No caso dele, no entanto, a gratidão é para com os desenhos da Disney. Seu filho Owen desenvolveu autismo na infância tornando-se praticamente incapaz de se comunicar verbalmente. Seu passatempo preferido, quase obsessivo, era assistir aos desenhos animados da Disney, no videocassete da família. Até que o pai descobre, quase sem querer, que os diálogos daquelas animações eram uma forma de conversar com o filho. Em Vida animada, lançado essa semana pela editora Objetiva, Ron Suskind (que é um escritor premiado) conta essa história em primeira mão. Um dos momentos mais emocionantes é quando ele descreve o momento da descoberta, quando, após anos sem trocarem uma palavra, conversa por preciosos minutos com Owen usando falas dos personagens. Uma história real sobre histórias imaginadas que vale a pena conhecer.