Caro Professor Luiz Barco,

Talvez o senhor já esteja cansado de ouvir gente falando que aprendeu a gostar de Matemática graças ao seu trabalho. Fique tranquilo, não é para isso que escrevo. Não por desgostar da matéria, mas justamente pelo contrário: eu já gostava antes de começar a acompanhar suas colunas na revista Superinteressante, lá pelos anos 1990. Mas sim, escrevo para agradecer. Só que minha gratidão ao seu trabalho é de outra ordem.

Há um tempo escrevi para o Almyr Gajardoni agradecendo pelo projeto da Superinteressante (não sei se ele recebeu a carta). No meio da mensagem eu citava um encontro que tive com o senhor num evento na USP, quando com voz trêmula fui declarar que era seu fã. Infelizmente eu não tinha conteúdo para estender a conversa, mas só conhecê-lo foi motivo de tremenda alegria na época.

Não tem problema. Naqueles dias eu ainda não tinha a dimensão do impacto de seu trabalho em minha formação. Acho que hoje, olhando para trás, tenho mais condições de agradecer.

Tirante a presença ubíqua da Matemática em nossas vidas, minha formação tem muito pouco a ver com o conteúdo que absorvi das suas colunas na revista. Tornei-me médico, especializei-me em Psiquiatria e posteriormente graduei-me em Filosofia. Nada a ver com a Matemática, podem pensar alguns. Mas apenas os que não sabem do seu tremendo talento em aplicar o raciocínio matemático ao dia-a-dia, mostrando a relevância da matéria para a vida real. E sempre transmitindo como ela pode ser prazerosa, bela e divertida.

Ao longo da vida acabei também me enveredando pelo mundo da comunicação, esforçando-me para traduzir a complexidade de nosso mundo cerebral e mental para o cotidiano das pessoas. Tentando, na medida do possível, manter o tom leve, cativando o leitor. Como – vejo agora – aprendi com o senhor. Não posso deixar de imaginar que seu trabalho influenciou minhas escolhas de carreira. Consciente disso ou não, ler seus artigos, assistir os episódios de sua série Arte & Matemática, saber que um professor de Matemática podia dar aula na Escola de Comunicações e Artes, tudo isso me fez ver que o conhecimento não conhecia fronteiras. O senhor me ensinou que era possível aproximar ciência e cultura antes que C. P. Snow me ensinasse que era possível (e equivocado) separá-las.

Muito obrigado. Seu trabalho é uma prova do que disse Henry Brooks Adams sobre a docência: “Um professor afeta a eternidade; ele nunca pode saber até onde vai sua influência.”

Um abraço agradecido,

Daniel