Caro Almyr Gajardoni,

Essa é a primeira carta de agradecimento que faço com referência bibliográfica. Mas isso, o senhor perceberá ao lê-la, é em grande parte responsabilidade sua. Sim, porque esse ano foi publicada uma pesquisa mostrando que o impacto positivo de mensagens de gratidão tendem a ser subestimados. Quem se propõe a escrever uma nota assim costuma achar que o destinatário irá se sentir mais constrangido do que feliz; mas a verdade é que quem recebe a carta fica muito mais contente do que imaginamos. Eu li a pesquisa porque adoro divulgação científica. Graças ao senhor.

Eu tinha dez para onze anos quando, no meio da revista Veja que meu pai assinava, veio um pequeno encarte falando sobre robôs e mais alguns assuntos que chamaram minha atenção de jovem nerd – numa época em que isso era ofensa, note bem. Era uma amostra grátis de uma revista que viria a ser lançada, meu pai explicou, e imediatamente pedi uma assinatura de presente. Assinatura que não ganhei. “Vamos ver quanto tempo dura esse interesse”, disseram meus pais.

Acontece que foi fácil manter meu interesse. A revista, afinal, era Superinteressante. Dias depois de ler o encarte fui até a banca próxima à Fundação Bradesco em Osasco, onde estudava, comprar o primeiro número, aquele sobre supercondutores. Lembro até hoje de uma senhora conversando com o jornaleiro que olhou desconfiada para aquela capa “O que eles querem com isso, Seu César?”, espantou-se.

Bom, queria saciar uma curiosidade que, naquela era pré-internet, não encontrava muitas fontes. Foi ali que descobri o que eram supercondutores; que existiu um homem chamado Freud; o que foi a Pedra de Roseta; que Da Vinci não era só pintor; o que são quasares; a linha evolutiva dos seres humanos; quem descobriu o DNA. Pensando agora, enquanto escrevo, percebo que muito do que sei até hoje aprendi nos anos áureos da “Super”. Quantos livros não li por indicação da seção de livros? Quanto será que meu cérebro se desenvolveu resolvendo os enigmas na seção de entretenimento? Recordo-me que num evento na USP, certa vez, reconheci o professor Luiz Barco, colunista fixo, e trêmulo de emoção disse que era seu fã.

Por tudo isso hoje sei que a “Super” foi para mim muito mais do que uma rica fonte de informação – e formação. Foi ela quem me ensinou (sei disso hoje, não tinha noção na época) que a ciência pode ser traduzida numa linguagem compreensível sem abrir mão da seriedade. Que tratar as pessoas com inteligência atrai o público em vez de afastá-lo. Ela influenciou minhas escolhas profissionais de mais maneiras do que consigo imaginar.

Quem só conhece a revista Superinteressante de hoje talvez não entenda do que estou falando. Com sua saída, em meados dos anos 1990, o perfil mudou muito. Deixou de ser um veículo de essencialmente de divulgação científica, pelo que percebi na época. Não coincidentemente foi quando cancelei – com dor no coração – minha assinatura (ganha após alguns anos comprando mensalmente, sem falta).

Mas tenho certeza que muitos dos cientistas, jornalistas de ciência e divulgadores científicos que atuam para levar o conhecimento ao público hoje o fazem graças ao seu trabalho na primeira fase da Superinteressante. Eu com certeza não seria quem sou sem ter lido a revista por uma década.

Do fundo do coração, muito obrigado.

Daniel

PS – Eis a referência: Kumar A, Epley N. Undervaluing Gratitude: Expressers Misunderstand the Consequences of Showing Appreciation. Psychol Sci. 2018 Jun 1:956797618772506.