A Country School, by Edward Lamson Henry

Eu não pretendia incluir parentes ou amigos próximos nas minhas cartas de gratidão. A essas pessoas devemos sempre lembrar de agradecer pessoalmente. Minha mãe irá figurar agora nessa série, contudo, mas não por conta de um agradecimento meu e sim de um ex-aluno dela (ambos autorizaram a publicação). Além de ser uma expressão de gratidão, o que já sabemos ser uma alavanca de bem estar, a mensagem levanta outros dois fatores importantes associados à psicologia positiva.

O primeiro é seguir um chamado. As pessoas que sentem ter um dom devem fazer o possível para exercê-lo. Ainda que não seja viável tornar aquilo sua profissão, é importante colocar o talento em ação. Pode ser num trabalho voluntário, ou com um pequeno grupo de amigos, eventualmente até no seu restrito círculo familiar.  Claro que nem todo mundo reconhece em si algum chamado especial – e tudo bem. Mas quando tentamos abafar aquela voz que diz “você nasceu para isso” uma insatisfação difusa pode surgir.

O segundo ponto é o impacto que podemos exercer nas pessoas, sobretudo nas crianças. Aparentemente esse aluno estava em risco de ficar marcado pelo medo do fracasso. Ao acreditar que podia mais, contudo, assumiu atitudes que reforçaram essa crença, num círculo virtuoso que culminou em sua história bem sucedida. Não sou ingênuo a ponto de afirmar que todos podem ganhar a medalha de ouro, bastando acreditar. Mas garanto que o contrário é certo: quem acredita que será derrotado, raramente vencerá no que for (veja indicação do Leitura Mental abaixo).

Por tudo isso achei que valia pena compartilhar esse agradecimento na série Cartas de gratidão. Amor, incentivo, gratidão – ele reúne várias atitudes que a gente sempre soube que faziam bem, e que agora vêm tendo sua eficácia comprovada pela ciência.

“Olá Professora Selma ,

Ou Tia Selma , como eu a chamava na 3a. Série C de 1977 da Fundação Bradesco. Lembro-me como se fosse hoje meu primeiro dia nesta escola, vindo de escola pública de Sorocaba quando meu pai foi transferido para a matriz do Bradesco. Muito atrasado na minha formação, a senhora me ajudou muito, me dando além das lições de casa extras para me ajudar com a matemática , ainda me dava muito apoio em sala de aula , sempre reforçando minha auto-estima e me fazendo acreditar que eu podia mais.

A senhora tinha razão! Daquele momento em diante desenvolvi uma incrível auto-confiança , que me acompanha até hoje e que sempre me abriu muitas portas. Depois da Fundação fui para o colégio Bandeirantes , depois Poli-USP , FGV , FIA-USP , Harvard e acabei me tornando alto executivo da Bombardier , multi-nacional da indústria aeroespacial e moro em Toronto , no Canadá, onde ainda sou Palestrante internacional e Presidente da Federation of Canadian Brazilian Businesses. Tudo isso foi resultado da minha crença de que eu podia mais , que foi ativada em mim pela sua ação pontual, no lugar e na hora certa.

Nunca tive a oportunidade de lhe dizer o quanto sou grato por tudo que fez por mim, num momento em que eu tanto precisava. Também não me esqueço do dia que nervoso com a primeira prova que teríamos acabei fazendo xixi nas calças dentro da classe e a senhora cuidou de mim como seu filho, me acalmando e me livrando da humilhação.

Seu carinho e seu cuidado só ficaram mais claros para mim depois que tive meus filhos e agora  aos 50 anos e olhando para trás, finalmente tenho consciência total do valor de seu trabalho e do impacto dele na minha vida e certamente na vida de outras tantas crianças que tiveram a sorte de ser seus alunos.

Um pouco atrasado, mas “Muito Obrigado”. Espero que ao longo destes 40 anos Deus a tenha recompensado pelo seu incrível trabalho. Quem sabe um dia nos encontremos .

Grande , carinhoso e verdadeiramente agradecido abraço de seu sempre aluno Sérgio Ricardo Borges Frias”

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Leitura mental

Relançado esse ano pela Objetiva, Mindset – a nova psicologia do sucesso, de Carol Dweck, comprova que a forma como pensamos – e no que acreditamos – pode fazer toda diferença em nossa vida. Em psicologia existem centenas, senão milhares, de teorias sobre a natureza humana, seu desenvolvimento e suas potencialidades, e frequentemente as linhas teóricas defendem pontos de vista opostos. Algo em que todas concordam, contudo, é que as nossas crenças fundamentais são capazes de moldar nossa visão de mundo, nossas atitudes e, em última análise, nosso destino. Dweck mostra, com abundância de evidências, que acreditar que somos flexíveis e podemos melhorar – seja em inteligência, características de personalidade etc. – traz muito mais benefícios do que crer que somos seres pré-formatados, nascidos de determinada maneira e condenados a morrer da mesma forma.