Caricatura do presidente Michel Temer, por Kleber Sales

Será que ainda dá para criar ao menos uma piada no Brasil? A pergunta está posta pelo menos desde o começo do século xx, quando o humorista Mendes Fradique comentou sobre tal dificuldade. Os comediantes invertem nossas expectativas, criando histórias e situações marcadas pelo inesperado, improvável, inadequado. O humor depende de um conflito entre “o que é e o que deverá ser”, em suas palavras,  mas “no Brasil, como em todas as nações de sua idade mental, tudo é precisamente como não deverá ser, de modo que se torna impossível esse contraste e, portanto, igualmente impossível o humorismo”. Nós vivemos numa piada.

É difícil discordar depois de conhecer o Cabo Daciolo. Se aceitarmos essa definição de piada – aquilo que inverte as expectativas, que apresenta o inesperado, improvável e inadequado, Daciolo é uma anedota em forma de candidato. Porque quando ninguém mais esperava surpresas na campanha para presidente, na qual imaginava-se que a única novidade seria chamar de novidade velhos personagens e velhas práticas, Daciolo surgiu inesperadamente. Ele é o improvável, o inadequado, com seu tom caricato e seu discurso fora do padrão.

Caricato talvez seja realmente a melhor forma de descrevê-lo. A caricatura exagera algumas características ao mesmo tempo em que simplifica o restante. O resultado é aquela representação que, embora não abarque o todo em sua complexidade, torna evidentes as imperfeições que lhe são essenciais. Depois de observarmos uma caricatura de algo ou alguém nunca mais olhamos para o objeto real da mesma forma. Não é mais possível deixar de enxergar os defeitos que são parte de sua essência. Cabo Daciolo me parece uma caricatura de Jair Bolsonaro. Mas como no Brasil as piadas são reais não me espantaria vê-lo roubar votos do ex-militar.

Exagerando ao ponto da distorção o patriotismo, o fanatismo, a religiosidade, o extremismo, o anticomunismo e o simplismo de Bolsonaro, Daciolo funciona como uma caricatura que torna esses pontos evidentes também em seu oponente. Quem o vê não consegue mais olhar seu adversário eleitoral sem enxergar os mesmos defeitos. Não é impossível que dessa forma ele abra os olhos de alguns bolsonaristas menos aguerridos.

Por outro lado, os eleitores que gostam de Bolsonaro justamente por encarnar ele mesmo uma caricatura do brasileiro, com sua truculência e superficialidade, os que vêm nos seus defeitos qualidades, têm agora uma alternativa ainda melhor. O que era ruim em um, é pior no outro. Para deleite dos fãs.

Os políticos e poderosos odeiam os comediantes não por outra razão – como bobos da corte eles dizem as verdades por meio do riso. Nesse sentido Cabo Daciolo pode ser uma piada. O problema, como diz o ditado, é que as piadas políticas às vezes acabam eleitas.

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Leitura mental

Nunca precisamos ir tão devagar. O cérebro, embora seja capaz de decisões tão rápidas que nos parecem automáticas, comete muitos erros nesse processo. Em Elogio da Lentidão (Almedina, 2018), o médico italiano Lamberto Maffei, que por quase trinta anos dirigiu o Instituto de Neurociências do Consiglio Nazionale delle Ricerche, em Roma, mostra que a capacidade reflexiva, necessária para avaliações mais profundas e elaboradas, sempre dependeu do tempo. Nos quatro capítulos que compões o livro Maffei conduz o leito a avaliar como a velocidade que nos cerca e pede respostas rápidas nos afasta dessa habilidade mais lenta. Em tempos de redes sociais, em que as manchetes geram mais barulho do que as notícias porque somos prontos para reagir e tardos para refletir, supervalorizamos uma habilidade do cérebro enquanto negligenciamos outra. Pior para todos.