No final dos anos 1990 assisti com minha irmã, então companheira de aventuras cinematográficas, um filme holandês laureado com Oscar de melhor filme estrangeiro. Pouco tempo depois, já na residência de psiquiatria, sempre que precisava lembrar os elementos que compõe a personalidade, lembrava do título do filme: Caráter (dirigido por Mike van Diem, Oscar de 1998).

De fato uma das formas de entender a personalidade é como resultado da interação entre o temperamento e o caráter. Enquanto o primeiro se refere às nossas disposições mais inatas, com grande influência biológica, o último diz respeito às relações pessoais, com os outros e conosco mesmos, sendo mais influenciado por nossas experiências de vida, mais moldado do que herdado.

Terminando de ler o livro Caráter, clássico da literatura holandesa que deu origem ao filme, lançado no Brasil pela editora Rua do Sabão, lembrei-me porque pensar nele me ajudava tanto. Escrito por um dos principais autores daquele país, Ferdinand Bordewijk, a história acompanha a trajetória do jovem Jacob Willem Katadreuffe, filho bastardo de um oficial de justiça com sua ex-empregada, que sonha em se tornar advogado. A dureza das relações interpessoais, a rigidez moral dos personagens – para bem e para mal – a marca das experiências que vão moldando o jovem protagonista, apontam de fato para a formação do seu caráter, palavra que se repete na história por diversas vezes conforme os outros personagens conversam com Katadreuffe. Quanto de sua personalidade será reflexo do temperamento que traz em seus genes, quanto será devido ao caráter que se forma na dureza de suas relações é algo que – como de resto acontece com todos nós – talvez jamais saibamos.

O subtítulo da edição brasileira, “Romance de pai e filho” não prepara o leitor para o que encontrará, porque embora essa seja a essência do livro, não se trata de uma história propriamente afetuosa. Ambos se encontram pouquíssimas vezes pessoalmente, a relação é áspera como a linguagem do autor. Pai e filho aqui refere-se muito mais à presença mental que o primeiro marca na vida do segundo e cuja brutalidade não conseguimos decidir se é uma tentativa de educar o filho ou meramente reflexo de seu próprio caráter.

Quem estiver atrás de um manual de parentagem para melhorar a relações domésticas, recomendo passar longe. Mas para os leitores interessados em mergulhar na alma humana, enxergando perspectivas que jamais imaginariam, é uma obra indispensável.

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PS – O posfácio do tradutor, Daniel Dago, me fez querer ler todo o restante da obra de Bordewijk. Que venham novas traduções.