Você já deve ter se deparado com aquelas imagens chuviscadas, pontilhadas, nas quais aparentemente há um desenho oculto, mas só após uma dose de esforço _ e bastante boa vontade – finalmente descobrimos do que se trata. Depois de desvendar o mistério a figura fica clara e não deixamos mais de enxergá-la – uma vez que o cérebro encontra o sentido do está que acontecendo é difícil abrir mão daquela explicação que de certa forma põe ordem no mundo.

Essa sede de organizar a realidade é insaciável em nossa cabeça. E se torna ainda maior quando nos vemos ansiosos e em situações fora de nosso controle. Há alguns anos uma dupla de cientistas publicou na revista Science uma pesquisa comprovando tal fato. Voluntários eram instruídos a descobrir o padrão em uma sequência de letras que, na verdade era totalmente aleatória. Metade deles eram deixados à vontade, tentando por si mesmos, mas a outra mememe recebia mensagens o tempo todo dizendo que estava errando. Esse grupo ficou mais estressado, claro, notando que não tinha qualquer controle sobre o que estava fazendo. No final todos eram apresentados a imagens pontilhadas nas quais deveriam identificar um desenho. Quando havia de fato alguma imagem oculta todos a enxergavam, mas mesmo quando eram apenas pontos amontoados e sem sentido, as pessoas do grupo que se sentiram ansiosas tendiam a enxergar padrões onde eles não existiam.

É assim que se proliferam os boatos, as mentiras deliberadas e as teorias conspiratórias em meio a situações caóticas como a que vivenciamos no Brasil essa semana. Diante de um cenário que nos gera ansiedade, em que as informações são incompletas, sobre o qual não temos controle algum, o cérebro fica ávido por encontrar alguma explicação que coloque ordem no caos, reduzindo a ansiedade. Por mais esdrúxulos que sejam se examinados racionalmente, os boatos que circulam pelas redes sociais são compartilhados quando estamos agindo movidos pelo medo, momento em que não é fácil pensar friamente. O medo é um dos maiores adversários da razão, afinal.

Nos últimos tempos, nos quais o país inteiro vive atualmente sob a sensação de incerteza, debatendo-se em meio a informações desencontradas, fica claro como nos tornamos presas fáceis para boatos quando surge uma situação especialmente estressante – seja a ameaça de falta de água, como há dois anos, a falta de vacinas, como recentemente, ou a paralisação das estradas de agora.

Nessa hora qualquer explicação _ mesmo falsa _ tem mais apelo do que explicação nenhuma.