No mês das crianças observo um fenômeno parecido com o que acontece no época de dia das mães, dos pais e até mesmo no dia dos namorados e no Natal – a proliferação de propagandas que mostram como é lindo ser pai, ser mãe, como a infância é maravilhosa, como relacionamentos curam as tristezas e como as famílias são felizes. Ninguém se lembra de dizer que esse é só um dos lados. Em relacionamentos de verdade além das alegrias há também frustração, desgaste, insatisfação, raiva. Mas paradoxalmente é justamente por isso que as propagandas funcionam: elas apresentam um mundo plenamente feliz (que não é o nosso e por isso desperta nosso desejo) e atrelam seu produto a essa imagem.

O caso da relação entre pais e filhos é emblemático. A paternidade, vendida como a maior benção que um ser humano é capaz de experimentar, traz de fato a possibilidade de se viver um vínculo afetivo inexistente em qualquer outra relação. Mas até por conta dessa entrega tão grande, da busca incessante do melhor para os filhos, da luta por deixar sua vida perfeita, um problema silencioso começa a corroer a vida emocional dos pais. O burnout paterno.

Descrita na década de 70 do século XX, até hoje a síndrome de burnout não é considerada propriamente uma doença, sendo melhor caracterizada como um conjunto de reações diante de alguma situação. Que tipo de situação? Qualquer uma que envolva estresse interpessoal crônico.

Os fatores de risco para o burnout incluem demandas muito grandes, envolvimento emocional intenso, trabalho em turnos, tarefas imprevisíveis, baixa autonomia, atividade não valorizada socialmente, comunicação deficiente entre as partes. E quanto mais dedicadas e idealistas forem as pessoas, maior o risco. Seus sintomas são divididos em três grupos: a exaustão emocional, marcada por fadiga, sensação de baixa energia e de esgotamento da energia emocional; a despersonalização, quando a pessoas se torna cínica, indiferente ao objeto dos seus cuidados; e a perda de realização pessoal, quando todo o trabalho passa a ser visto como insuficiente, inútil até.

Agora leia o parágrafo anterior novamente, dessa vez pensando não numa profissão, mas no trabalho dos pais. Demanda excessiva, imprevisibilidade, turnos, desvalorização, comunicação ruim, idealismo. Não estranha que pais sejam afetados pelo burnout, não é? Ainda nos final dos anos 80 estudiosos relataram que ao menos duas das três dimensões da síndrome afetavam os pais – a exaustão emocional e a perda de realização.

Nesse caso, contudo, o problema é agravado pela negação. Como somos obrigados a tratar a paternidade como uma dádiva perfeita é frequente nos recusarmos a reconhecer seus aspectos negativos. Com isso vamos adoecendo e arrastando um sofrimento crescente sem nos darmos conta. E nos sentimos culpados por não alcançarmos aquela beatitude das propagandas sempre que estamos com nossos filhos.

Bom, não precisamos nos sentir culpados. Filhos dão, sim, muita alegria. Mas dão o mesmo tanto de trabalho. É urgente reconhecer que somos capazes de amar e ter raiva ao mesmo tempo, de querer esganá-los e desejar que vivam para sempre, de rir e chorar. Enquanto não admitirmos que, como em qualquer relacionamento, pais e filhos podem e vão atravessar momentos de felicidade e infelicidade na relação, continuaremos a fingir que as crianças são perfeitas, que ser pais é viver em perpétua euforia. E continuaremos a nos decepcionar, na melhor das hipóteses, ou a adoecer, na pior delas.

fonte: Pixabay

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