Dois patos estavam nadando quando um disse “Quack!”, ao que o outro respondeu: “Eu dizer exatamente isso!”.

A piada não é tão boa, mas estranhamente, é considerada mais engraçada do que as versões usando outros personagens, como vacas dizendo “Muu”, ou cachorros “Au”. A teoria é que a expressão facial envolvida em dizer “quack”, aberta e mais semelhante a um sorriso, influencia positivamente o humor, enquanto com as sisudas “Muuu” ou “Au” aconteceria o contrário. Segundo tal raciocínio, a emoção modifica o rosto, mas a expressão facial também altera as emoções.

A ideia não é nova. Em 1844 Edgar Alan Poe, o pai das histórias policiais e de mistério, escreveu o antológico conto A carta roubada. Em determinado trecho seu famoso detetive Dupin descreve um menino que sempre ganhava num jogo de par ou ímpar com bolas de gude, como que adivinhando o pensamento dos oponentes. Ao perguntar seu método, ele ouve do garoto: “Quando quero saber até que ponto alguém é inteligente, estúpido, bom ou mau, ou quais são os seus pensamentos no momento, modelo a expressão de meu rosto, tão exata­mente quanto possível, de acordo com a expressão da refe­rida pessoa e, depois, espero para ver quais os sentimentos ou pensamentos que surgem em meu cérebro ou em meu coração, para combinar ou corresponder à expressão.” Até onde sei, é a primeira descrição desse fenômeno.

Pensando nisso, médicos alemães propuseram a utilização de botox para tratar a depressão. Enganou-se quem imaginou que o tratamento baseou-se em fazer as pessoas se sentirem mais jovens e bonitas, e portanto mais felizes. O objetivo era relaxar a carregada expressão facial que os deprimidos geralmente apresentam, paralisando a musculatura da testa e, consequentemente, bloqueando a influência negativa da face no humor. Para isso escolheram trinta voluntários com depressão, aplicando botox na testa de metade deles, e soro fisiológico na outra parte. O estado emocional de todos era equivalente no início do estudo, mas seis semanas depois as escalas de sintomas depressivos mostraram uma melhora cinco vezes maior nos pacientes tratados com botox do que nos que receberam placebo.

Da próxima vez que perceber que está ficando de mau humor, portanto, sorria. O velho conselho de agir como se estivesse feliz para se sentir assim parece ser eficaz, afinal de contas.

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Wollmer MA, de Boer C, Kalak N, Beck J, Götz T, Schmidt T, Hodzic M, Bayer U, Kollmann T, Kollewe K, Sönmez D, Duntsch K, Haug MD, Schedlowski M, Hatzinger M, Dressler D, Brand S, Holsboer-Trachsler E, & Kruger TH (2012). Facing depression with botulinum toxin: a randomized controlled trial. Journal of psychiatric research, 46 (5), 574-81 PMID: 22364892