Sabe aqueles testes psicológicos em que a gente vê uma figura, seja uma mancha abstrata, seja um desenho, e temos que falar do que se trata? Eles são chamados testes projetivos, porque qualquer resposta que criemos a partir de um estímulo aberto refletirá muito sobre nós mesmos. Se nos perguntam quanto é dois mais dois ou em que ano o homem chegou à Lua, a resposta revela no máximo nosso grau de conhecimento ou ignorância. Mas quando a pergunta é “o que você acha disso?”, a resposta sempre trará projeções de nós mesmos.

Bird box, o filme sensação do momento, produzido pela Netflix, funciona por causa disso. Claro, não só isso.

Detentor de uma quantidade assombrosa de dados sobre o comportamento do público, o estúdio é capaz de saber desde o tipo de filme que mais prende atenção até qual estilo de cena faz a pessoa desligar a TV. Sabe se protagonistas femininas têm mais ou menos apelo que masculinos, quantos atores coadjuvantes são necessários para fazer sucesso, que estilo de trilha sonora é mais associada com classificações positivas. E muito mais. Dessas informações saem fórmulas de sucesso garantido. Não que ela tenha descoberto essa mina de ouro. Desde a ideia dos arquétipos, que estariam na base da representação de qualquer personagem, em qualquer história, até a recente descoberta, pela análise por inteligência artificial, de que seis grandes tipos de arcos dramáticos ditam o ritmo das mais diferentes narrativas, todo mundo segue fórmulas. A Netflix só elevou essa técnica ao seu paroxismo ao usar big data.

Bird box segue o arco emocional batizado como “Cinderela”, no qual narra-se uma ascensão, seguida de uma queda para terminar com nova ascensão. (Não por acaso, um dos arcos mais populares). Ao longo do filme esse esqueleto vai sendo coberto por outras camadas, também segundo fórmulas conhecidas – o coadjuvante opositor que termina se rendendo ao grupo, o par romântico que hesita em se envolver, o medroso que se torna herói involuntário. A coisa já fica no jeito para agradar.

Mas o grande trunfo do filme é manter-se metafórico. Na história uma epidemia de suicídios vem dizimando a humanidade, atacando a todos que olham para algo (nunca descobrimos o que). A protagonista é a mãe de duas crianças que, junto com poucas pessoas consegue sobreviver e criar um lar relativamente bem sucedido usando vendas sobre os olhos quando necessário (primeira ascensão -sair do caos para uma vida estável). Chega uma hora em que ela é forçada a fugir, tendo que atravessar vários desafios sem enxergar nada, guiando duas crianças também vendadas (queda – o fim da tranquilidade). Até que ela chega a uma colônia de outros sobreviventes, para recomeçar a vida (ascensão final).

Seu maior apelo, creio, deve-se em boa parte às repostas que o filme não dá. O que é esse algo terrível? O que acontece com as pessoas que elas querem se matar? Por que olhar é suficiente para se contaminar? Ao não fechar a narrativa, cada um que assiste o filme sente que ele fala consigo ao projetar nele coisas muito próprias. Podemos imaginar qualquer coisa como esse mal contagiante – comunismo, fascismo, direita, esquerda, pornografia, ciência, religião, você escolhe. E ao travar contato com esse mal as pessoas se matam; por quê? Também fica a gosto do telespectador: porque perdem a esperança, a fé, a sabedoria, a integridade, os vínculos, os valores – a lista segue. A necessidade de ser vendado pode ser vista como um símbolo de alguma abstenção que temos que nos impor para evitar o contato com esse mal. O que seria? Sair das redes sociais, evitar conversar com determinados parentes, não ter contato com a mídia? E como tem gente sem discernimento para perceber por si só os riscos, as crianças estão ali a representá-las. Populações cuja autonomia nós restringimos, proibindo-as disso ou daquilo, para seu próprio bem. Proibir termos ou assuntos em sala de aula, banir produtos, restringir acessos, a metáfora é ampla, serve para muita coisa. A redenção alcançada no final vem apenas justificar tudo, tanto o sacrifício pessoal como aquele que foi imposto aos outros. O mal não nos alcançou e não nos roubou o que tínhamos de mais valioso.

Ou seja, Bird box não é um filme. É uma mancha de Rorschach, um teste psicológico. Cada um o interpreta como pode. É bom ou ruim? Bem, depende muito do que você enxergar.

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Leitura mental

É difícil descrever o livro Assim eu vejo (Editora do Brasil, 2018), dos ucranianos Romana Romanyshyn e Andriy Lesiv. Simplificadamente, trata-se de uma obra ilustrada para crianças sobre a visão. Mas ele é tão rico e tão diverso que é muito mais do que isso. Fala sobre a luz e seus reflexos, que nos permitem ver. Sobre os instrumentos que com suas lentes modificam o trajeto da luz e ampliam nossa capacidade visual. Sobre as imagens desenhadas com luz, estáticas ou dinâmicas, que criam a fotografia e o cinema. E não esquece dos sons e relevos que fazem as vezes da luz para os que não enxergam. Isso para não mencionar que, mesmo que enxerga, várias vezes é iludido pela visão. Às manter os olhos fechados pode evitar muita confusão.