Nos últimos dias nós vimos muitos especialistas explicando coisas que para os leigos parecem inexplicáveis. Especialistas vivem disso, afinal. Se eles são peritos em determinada matéria supõe-se que saibam as respostas que os não esclarecidos não sabem.

Será que ninguém se dá conta que isso leva a um conflito de interesses? Se alguém que se diz expert em determinada matéria assume que não sabe responder as perguntas que são feitas para ele, que raio de expert ele é? Então o que fazem esses especialistas? Não podem assumir que não sabem, não podem dar explicações simples (que um leigo daria), mas não querem perder o palanque contrariando as crenças mais arraigadas das pessoas.

Por isso que eles passam a confirmar lugares comuns – o que leva o público a acreditar neles – e recheiam suas colocações com o jargão da área – o que os fazem parecer inteligentes, reforçando sua credibilidade.

Mas a verdade é que existem muitas, muitas coisas para as quais não temos respostas.

Por exemplo:

  • Ninguém sabe o que leva jovens a entrarem atirando em escolas. – sabemos que existem fatores associados, como estrutura de personalidade frágil, busca de identidade, sensação de injustiça, desejo de vingança. Mas nenhum desses fatores é necessário e suficiente para tal comportamento. Ou seja, não existe uma causa conhecida.
  • Ninguém sabe por que a taxa de suicídio aumenta no mundo. – há teorias e especulações, que vão da nossa incapacidade de tolerar sofrimento ao aumento do narcisismo nas pessoas, passando pela enorme incidência de depressão e uso de drogas. Só que existem tantas motivações diferentes para alguém tirar a própria vida que até hoje é impossível dizer que haja um motivo claro.
  • Ninguém sabe quanto tempo uma criança pode usar o celular. – a mais citada recomendação, da Academia Americana de Pediatria, é um chute, como mostrou a mais recente pesquisa científica feita pelo Royal College of Paediatrics and Child Health. Mesmo a associação entre tempo de tela ansiedade, déficit de atenção e hiperatividade é fraca, e é impossível determinar o que é causa e o que é consequência.
  • Ninguém sabe se videogames violentos promovem a violência. – há estudos de vários países, com várias metodologias mostrando… vários resultados. O mais recente grande estudo não encontrou relação entre o grau de exposição a jogos violentos e agressividade em mais de mil jovens britânicos entre 14 e 15 anos. E mesmo os estudos que apontam para alguma relação não conseguem dizer se são os jogos que deixam jovens agressivos ou se jovens agressivos é que buscam mais esse tipo de jogo.

 

Do ponto de vista científico isso não é um problema, é uma vantagem. A ciência é o lugar da dúvida, do questionamento, da formulação, teste, refutação e reformulação de hipóteses. O trabalho do cientista é ir atrás das respostas, não tê-las na ponta da língua para publicar na internet.

Dá próxima vez que ouvir uma suposta figura de autoridade cheia de certeza, desconfie. A certeza é matéria da religião; na ciência as verdades são sempre transitórias.

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Leitura mental

Lançado no ano passado, o melhor livro nacional que conheço sobre essa questão é o Ciência e Pseudociência, de Ronaldo Pilati (Editora Contexto). Pesquisador brasileiro sobre a racionalidade e a irracionalidade humana, Pilati mostra que muito do que se diz científico por aí na verdade não tem nada (ou tem muito pouco) de ciência. Apesar disso nosso cérebro, sedento por explicações e cheio de vieses, aceita muitas explicações de forma irrefletida, acreditando que são sólidas – quando são apenas opiniões. Como ele bem coloca “O que caracteriza o conhecimento científico não é o currículo acadêmico daquele que lhe transmite o conhecimento, mas sim o fato de sempre reconhecer que o que sabemos pode ser falho, e que, mesmo eventualmente falho, é útil naquele momento porque existem evidências que sustentam aquele conhecimento”. Pense nisso.