Quando eu estava no final do ensino médio perguntei para minha irmã o que ela faria se ganhasse numa mega-sena, dessas muito acumuladas. Ela, que já estava na faculdade de Medicina, décadas mais madura do que eu apesar de menos de dois anos mais velha, disse que compraria uma casa, ajudaria meus pais, investiria – essas coisas de gente grande. “Puxa, que sério” pensei. “E eu aqui sonhando em montar um estúdio cinematográfico num terreno abandonado em Osasco”. Fique me sentindo o moleque que era.

Mas não sei se eu estava tão errado assim. Afinal de contas, era tudo brincadeira. Nós nem sequer fazíamos as apostas, por que ser tão sério? Se era faz-de-conta, por que não fantasiar em gravar a primeira superprodução osasquense? Nós bem podíamos deixar a seriedade para a vida real.

Com o livre-arbítrio acontece uma coisa parecida. A gente adora brincar com a ideia de não termos capacidade de escolher livremente, como se nossas decisões estivessem todas pré-determinadas pelas escolhas anteriores, por sua vez decorrentes das decisões precedentes, numa regressão infinita. Que no fim, nos eximiria de toda a responsabilidade. Todos brincam com essa ideia: teólogos, filósofos, neurocientistas. Esses, então, adoram declarar a morte do livre-arbítrio a cada avanço tecnológico desvendando um pouco mais a interação entre corpo e mente. No funcionamento puramente mecânico do cérebro, determinado pela interação entre moléculas formadas por átomos sem consciência, residiriam todas nossas decisões – cuja liberdade seria mera aparência.

Mas na vida real somos responsáveis por nossas ações. Sem isso desabam os pilares da civilização: religiões, Direito, relações pessoais, comerciais, familiares – tudo conta com respondermos por nossos atos. Podemos brincar à vontade com a ideia do determinismo no plano das ideias, mas no plano da realidade não há margem de manobra.

O novo filme da série Black Mirror, Bandersnatch, leva essa brincadeira a um estado de arte. Arte pop, vá lá. Mas fazendo jus ao DNA disruptivo da série, ele traz uma inovação formal bastante interessante, colocando a seu serviço uma trama metalinguística que mantém o alto nível de seus roteiros anteriores.

Dessa vez nós, telespectadores, somos chamados em vários momentos a decidir qual será a próxima ação do personagem. Ao longo do filme surgem na região inferior da tela, em vários momentos, dois cursos de ação possíveis para o protagonistas, cabendo a quem está assistindo escolher entre elas. Desde o que comer no café da manhã até como lidar com um crime. Tal estrutura bifurcada leva a trama para diferentes caminhos – os números oficiais até agora falam em cinco finais distintos. E a metalinguagem fica por conta de o personagem principal ser um programador de games dos anos 1980 às voltas com a adaptação para computador de um livro-jogo chamado Bandersnatch. Seria um adventure, aqueles jogos nos quais você escolhe o que o personagem irá fazer, interferindo com o desenrolar da história.

Dos cinco finais, um me pareceu mais oficial. Só nele os créditos são entremeados com cenas que expandem a história, recurso típico da linguagem Black Mirror, e é o único em que o jogo Bandersnatch, após lançado, recebe nota máxima da crítica. Mas mesmo assim – ou talvez por causa disso – tive uns breves insights sobre nossas decisões na vida:

  • Independente de sermos livres ou não na teoria, na prática nossas ações trazem consequências muito reais.
  • Há muitas decisões – talvez a maioria – que não fazem diferença nenhuma no panorama geral da nossa história (ao contrário da compreensão rasteira do efeito borboleta, segundo a qual toda pequena mudança no presente trará drásticas consequências no futuro).
  • Há, contudo, decisões que fazem muita diferença, e elas podem sim ser classificadas como certas ou erradas.
  • Decisões erradas são as que impedem a o fluxo das coisas, paralisam o tempo, freiam a vida. (No filme isso aparece como becos sem saída, quando a história volta e temos que refazer as escolhas que não levaram a nada).
  • Decisões certas não são as que levam para um fim desejado. Chegar a um ponto precisamente escolhido depende de muito mais coisas do que nossas escolhas, afinal. As decisões certas são as que fazem a vida progredir. A direção não depende só de nós.
  • Há poucos desfechos possíveis disponíveis nessa vida, e no final mesmo só existe um (e é o mesmo para todos).  Mas os caminhos que percorremos até eles podem variar bastante – para melhor ou para pior – em função das bifurcações que tomamos.

Existem muitas outras camadas de leitura para Bandersnatch. E muitos outros finais possíveis para esse artigo. Que poderia ter sido escrito de tantas outras formas. Mas ao tomarmos nossas decisões criamos uma realidade que não pode ser transformada. Por mais que brincar de mudar o presente alterando o passado seja divertido. E renda bons filmes.

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Leitura mental

Para um tema tão psicodélico nada melhor do que recomendar o recente Como mudar sua mente (Intrínseca, 2018) do escritor de ciência Michael Pollan. Mais conhecido por seus livros sobre alimentação, Pollan se interessou pelo universo das substâncias psicodélicas e resolveu se aprofundar no tema. E se aprofundar incluiu não apenas conversar com neurocientistas, médicos, psicólogos, mas também com voluntários que usaram LSD e que tais, além de mergulhar ele próprio numa experiência lisérgica. O resultado é um livro bastante abrangente – histórica, neurológica e farmacologicamente – sobre a busca da humanidade por alterar seu estado de consciência, que se existe desde o remoto passado, num futuro não tão distante pode se tornar um instrumento terapêutico promissor para o alívio de diversos transtornos mentais.