De volta ao mundo da dieta saudável baseada em evidências. Conforme prometi, esse ano vou buscar no conhecimento científico atual disponível as ferramentas para comer bem, escrevendo mensalmente sobre o tema. Isso inclui:

1 – Descobrir, no cipoal de regimes propostos por aí, quais têm sustentação empírica;

2 – Entender porque nós tão frequentemente falhamos em seguir as dietas;

3 – Encontrar nas ciências comportamentais meios de manter-se na linha.

Enquanto pesquisava para escrever sobre o primeiro item me deparei com outra necessidade: desmascarar uma das mais famosas modas atuais: a dieta detox. Se pelo título você achou que eu falaria das propriedades desintoxicantes da babosa, lamento te decepcionar, mas nem a babosa nem qualquer outro produto sendo anunciado como “detox” passou pelo teste das evidências científicas.

Não são apenas dietas que tentam explorar esse nicho: cápsulas, fórmulas, cosméticos, massagens, chás, todo mundo agora promete ser capaz de livrar seu corpo das maléficas toxinas. Essas substâncias químicas que todos combatem e ninguém diz quais são ameaçariam sua saúde ao alterar seu metabolismo, promovendo inchaços, olheiras, ansiedade, fraqueza, sonolência, dores de cabeça e até coceira genital. Um bom esquema detox te livraria de tudo isso, além dos quilos extras. Os milagres são anunciados de forma tão desavergonhada que a ANVISA suspendeu ano passado a publicidade de 21 produtos que alardeavam o que não podiam. Mas o fato de não dizer com precisão quais são as toxinas, o que elas fazem, como as substâncias milagrosas as aniquilam não é por acaso: é porque esse estado de intoxicação simplesmente não existe. Esse mercado milionário incorpora com perfeição o que Millôr Fernandes escreveu sobre a Medicina em geral: “A Medicina está fazendo tais progressos que já descobriu várias curas para as quais não há doenças possíveis”.

Há pouco mais de um ano uma matéria no The Guardian denunciava o mito dessas dietas, mostrando que elas se alimentam da ignorância científica. Cientistas do Reino Unido foram atrás de fabricantes de produtos detox, e nenhum deles soube explicar o que era exatamente desintoxicação, não havia qualquer consenso e muitos confessaram estar usando a palavra como sinônimo de limpeza. Uma revisão crítica das evidências científicas mostra que, apesar de algumas substâncias de fato promoverem a eliminação de metais pesados do organismo, nenhum produto ou esquema que se diz detox foi estudado cientificamente até hoje para comprovar suas alegações. Ou seja, pode até haver alguma verdade por trás  dessa moda. Só não foi ainda demonstrada.

Mas pensar cientificamente cansa. O pensamento mágico tem muito mais apelo. No fundo o sucesso dessas dietas é fruto de um marketing genial. Ele joga com nossa culpa constante pelos excessos que cometemos, com nosso medo da poluição em que vivemos e diz que os resultados dessa esbórnia urbano-moderna são sintomas tão genéricos que todo mundo se reconhece neles. Aí basta oferecer um tratamento que jogue pesado com nossa subjetividade para garantir os milagrosos efeitos. Placebo, infelizmente.

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Klein, A., & Kiat, H. (2015). Detox diets for toxin elimination and weight management: a critical review of the evidence Journal of Human Nutrition and Dietetics, 28 (6), 675-686 DOI: 10.1111/jhn.12286