Eu sempre conto essa história nas palestras: quando estava com as crianças pequenas, um de 2 anos e uma recém-nascida, minha irmã me chamou de lado e me disse que eu não estava normal – estava irritável, ranzinza, e sem o bom humor que antes me caracterizava não tinha mais as tiradas que costumavam ser tão frequentes. Será que estava deprimido? Não sei se você já passou por isso, mas mesmo para um psiquiatra não é agradável lançarem suspeitas sobre sua saúde mental. Ninguém liga se é questionado sobre sua saúde física (a não ser com relação à obesidade, talvez). Mas talvez pelo preconceito que temos com relação à mente, acreditando-a destacada do corpo e regida por forças imateriais, talvez pelo histórico da psiquiatria associado à loucura, questionar a saúde mental é outra coisa.

Mas levei a sério – irmã mais velha, neurologista, vale a pena prestar atenção – e conversei com um colega psiquiatra. “Será que não é cansaço, Daniel?”, ponderou ele. De fato eu vinha numa privação de sono considerável – estava com dois bebês em casa e ainda queri manter a mesma rotina de quando não tínhamos filhos. Dormindo tarde e acordando cedo cronicamente, com sono entrecortado, uma hora a conta chegou. Contra minha vontade reorganizei a agenda, abri mão de livros e seriados, ganhando (de volta) uns quarenta e cinco minutos a mais de sono. Ou seja, recuperei quase uma noite inteira por semana. E meu humor voltou ao normal.

Frequentemente resgato esse episódio da minha vida porque ele mostra como mesmo nós, atentos à saúde mental, somos capazes de negligenciar algo tão básico como o sono. De fato, impressionantes dois terços dos adultos nos países desenvolvidos dormem menos de oito horas por dia. O número consta do excelente livro Por que nós dormimos : a nova ciência do sono e do sonho (Intrínseca, 2018), escrito pelo neurocientista Matthew Walker. Médico de formação, ele passou a se dedicar ao estudo do cérebro e há mais de vinte anos dedica-se a desvendar os mistérios do sono. Agora reuniu duas décadas de pesquisa num texto tão acessível como esclarecedor.

Walker costura as experiências do cotidiano com evidências científicas, entremeando-as com dicas práticas e informações médicas importantes. Por exemplo, assim como aconteceu comigo, as pessoas que estão com privação de sono tornam-se incapazes de avaliar adequadamente esse déficit – sobretudo quando ele é agudo. Já quando é crônico, o sono curto associa-se não só à depressão – o que fatalmente aconteceria comigo se minha irmã e meu amigo não tivessem me alertado a tempo – como a diversos outros problemas, desde maior risco de desenvolvimento de demência até morte precoce por doenças cardiovasculares.

Outra dicas preciosas: todo mundo sabe que o café atrapalha na hora de dormir – mas poucos sabem que depois de cinco horas ainda temos metade da dose consumida circulando em nosso sangue. E ao contrário do que muito creem, o álcool atrapalha muito mais do que ajuda na hora de dormir.

Uma das perguntas mais comuns que se fazem as pessoas (que não sofrem de insônia propriamente dita) é: será que estou dormindo suficiente? Embora na dúvida seja melhor consultar um especialista, Walker propõe o seguinte teste de rastreamento: após acordar, você seria capaz de dormir novamente às dez ou onze da manhã? E você consegue funcionar bem sem tomar um café antes do almoço? Responder sim para a primeira e não para a segunda podem indicar que seu sono esteja insuficiente.

E se for esse o caso, as evidências apresentadas ao longo das quatrocentas páginas de informação valiosa – corroboradas por minha própria história – dizem que vale a pena prestar atenção nisso. Antes que seja tarde.