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Eu sempre fui baixinho. Os meus atuais um e setenta de altura (1,69, de acordo com algumas medidas menos simpáticas) comprovam que nunca estive acima da média. Bem ao contrário, cresci entre os primeiros das filas escolares por ordem de tamanho. Cheguei a fazer acompanhamento com endocrinologista para garantir que ao menos atingisse o potencial genético (a gente já nasce com a altura que vai atingir definida. Nos casos não patológicos os tratamentos não são para driblar o destino e ir além da estatura que herdamos, mas para não ficar aquém). Isso nunca foi um problema, no entanto. Não é que eu não me importasse com o isso. Era como se a questão não existisse.

De alguma maneira meus pais conseguiram fazer com que aquilo não fosse realmente um problema. Quando me dei conta disso, já adulto, tentei descobrir qual tinha sido o truque. Como eles tinham feito para esvaziar da carga negativa algo que poderia ser fonte de bullying, trauma, baixa autoestima etc.? A verdade é que nem eles sabiam. Embora não tenham negligenciado a questão, intuitivamente não transmitiram para mim que aquilo era algo com que se preocupar. Minha altura não importava.

Acho que finalmente desvendei a mágica, com ajuda da escritora Shefali Tsabary. Psicóloga com formação em mindfulness, ela une os princípios da atenção plena e da psicanálise no livro Pais e mães conscientes, lançado esse ano pelo selo Bicicleta Amarela, da editora Rocco. Pense num livro que me surpreendeu. Como a maioria dos cientistas eu sei que a psicanálise não se sustenta como teoria científica há décadas, por isso achei que não gostaria do livro. Mas Tsabary utiliza os conceitos psicanalíticos (e budistas) não como verdades factuais, e sim como símbolos para embasar um raciocínio difícil de discordar: só quando estamos muito conscientes de nós mesmos é que somos capazes de respeitar a individualidade de nossos filhos, separando o que é nosso do que é deles. Se não exercemos essa atenção no momento de educar, corremos o risco de deixar que nossos dramas embacem a visão clara da pessoa diante de nós.

No capítulo “Liberte seu filho da sua necessidade de aprovação”, por exemplo, ela lembra que os seres humanos têm valor apenas por existirem, e devem ser plenamente aceitos pelo que são. Isso não significa que atitudes não devam ser corrigidas ou que devamos aprovar tudo o que os filhos fizerem. Os atos podem ser recompensados ou punidos, mas as pessoas são mais do que seus atos. Sua essência é que deve ser valorizada para além das circunstâncias. Crianças que crescem assim “aprendem cedo que é o seu espírito que significa mais num relacionamento, e é a isso que vão recorrer para navegar por suas experiências como adultos. Operando a partir dessa conectividade intrínseca, elas não precisam buscar aprovação externamente, não têm sede de galardões, mas homenageiam quem elas são por sua própria noção de aprovação.”

Acredito que foi o que meus pais fizeram. Sem me dar conta disso, aprendi que minha altura não dizia nada a meu respeito. Eu era quem era, e sempre fui valorizado e aceito. Fosse ou não baixinho, era para dentro que eu deveria olhar para ter uma medida do meu valor.

Mas cuidado. Isso não quer dizer que devamos inflar a autoestima das crianças. Aliás, é bem ao contrário: se fizermos isso corretamente elas entenderão que não são inferiores a ninguém, mas também não são superiores. Autoestima apenas na medida certa. Um dos itens mais raros no mercado da educação atualmente.

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Leitura mental

Vizinha de blog aqui no Estadão com o Ser mãe é padecer na internet, Rita Lisauskas percebeu logo que criar filhos era muito fácil, desde que fosse o filho dos outros. Quando se tornou mãe viu que a conversa era muito outra – “Eu era uma ótima mãe, até que meu filho nasceu”, diz o título de um dos seus artigos, agora transformado em capítulo no livro Mãe sem manual, lançado esse ano pela Belas Letras. Lisauskas reúne textos e dicas de uma mãe ciente de que quase nada na empreitada da maternidade (e da paternidade) tem gabarito para diferenciar o certo do errado. Gravidez, parto, amamentação, criação, carreira – os temas universais que desafiam quem ousa trazer uma pessoa ao mundo são tratados com leveza e sem julgamentos. Como só uma mãe consciente é capaz.