Ano passado pedi de Natal para minha esposa um fone de ouvido. Daqueles grandes, com um botão extra para reduzir o ruído ambiente. Desde então o desafio de me concentrar para ler um texto ou escrever um artigo ficou um pouco mais fácil. A música até pode me distrair um pouco, mas não tanto quanto a multiplicidade de estímulos que concorrem por minha atenção.

Durante muito tempo, inspirado pelos postulados de um dos pioneiros da psicologia, William James, o modelo usado para compreender a atenção era o de uma lanterna: como se nós estivéssemos num quarto escuro e a atenção lançasse luz sobre aquilo em que queríamos nos focar. Mas esse modelo tinha uma brecha:  se nossos sentidos estão abertos o tempo todo aos estímulos nós não estaríamos num quarto escuro, mas num quarto excessivamente iluminado. O desafio da atenção seria o de reduzir o brilho de todos os outros estímulos para ressaltar o que nos interessasse.

Nos últimos anos as pesquisas têm conseguido demonstrar que isso de fato acontece. Com novas tecnologias que conseguem inibir o funcionamento de regiões específicas do cérebro, os cientistas descobriram que o córtex pré-frontal escolhe no que prestar atenção, e transmite tal informação para regiões mais profundas do cérebro, como os gânglios da base, que então fecham as barreiras para os estímulos concorrentes. E tal filtragem pode acontecer dentro de uma mesma modalidade sensorial: se você consegue conversar numa festa cheia de gente é porque o cérebro separa informação e ruído de fundo automaticamente, por exemplo.

Se tal mecanismo fosse contínuo, contudo, nós correríamos o risco de manter o foco exageradamente em algo, deixando de receber informações importantes para sobrevivência. O que faz o cérebro? Algumas vezes por segundo ele abaixa a guarda, diminui a barreira para estímulos concorrentes, permitindo o monitoramento do ambiente. O que embora possa ter sido importante para nossa sobrevivência, hoje torna-se um ponto fraco para a concentração, continuamente ameaçada pela distração.

Por isso os fones de ouvido me ajudam. Se todas as vezes que meu cérebro afrouxar o laço meu entorno estiver cheio de coisas para serem ouvidas, interpretadas e analisadas, aumentam as chances de eu perder o foco. Já se não houver nada interessante ocorrendo a minha volta, maior a probabilidade de rapidamente voltar a me concentrar. Não é por acaso uma dica valiosa para manter a concentração é reduzir os estímulos externos. Desligar alertas de celular. Desligar o próprio celular. Fechar abas extras do navegador. Não ser avisado quando chegar e-mail. Pedir para não ser interrompido.

Não é o único caminho (mais dicas nesse vídeo), mas é talvez a mais importante. Por isso, se cruzar comigo com fone de ouvido e eu não te cumprimentar não estranhe. Não é pessoal. Só estou tentando me concentrar.

 

Nakajima M, Schmitt LI, Halassa MM. Prefrontal Cortex Regulates Sensory Filtering through a Basal Ganglia-to-Thalamus Pathway. Neuron. 2019 Aug 7;103(3):445-458.e10.

Fiebelkorn IC, Kastner S. A Rhythmic Theory of Attention. Trends Cogn Sci. 2019 Feb;23(2):87-101.

 

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Leitura mental

Os sonhos são indubitavelmente uma das janelas mais interessantes para nosso mundo mental. São, contudo, janelas misteriosas, cheias imagens aparentemente sem lógica, abertas às mais diversas interpretações. Dizem muitas coisas, mas nem sempre o que dizem é claro – como os oráculos gregos. Em O Oráculo da noite (Companhia das Letras, 2019) o neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, pesquisador de referência mundial sobre o sono e os sonhos, compõe uma história da nossa relação com esse fenômeno que intriga a humanidade desde sempre. Indo da mitologia grega à psicanálise, da genética às neurociências, Ribeiro apresenta ao leitor o que se sabe, o que não se sabe e o que se imagina que os sonhos revelem sobre nós. Além do que ainda está por vir.