O jornal francês Charlie Hebdo voltou a ser notícia ao publicar uma charge em que faz referência ao menino Aylan Kurdi, refugiado sírio fotografado morto numa praia após um naufrágio. O gancho é a onda de estupros e violência que ocorreu na Alemanha na noite do dia 31 de dezembro. Centenas, talvez milhares, de mulheres foram atacadas e violentadas, e parte dos criminosos presos era de refugiados que estavam legalmente no país. O tema da imigração é muito sensível: se por um lado pode ser cruel negar asilo a estrangeiros desesperados, por outros cidadãos europeus temem que terroristas se infiltrem entre os refugiados para realizar ataques, ou que os ingressantes se tornem párias e criminosos. A onda de crimes no réveillon puxou de novo o pêndulo para o lado dos que apontam os riscos do abrigamento – o que também é simplista, já que embora muitos dos criminosos fossem estrangeiros, a maioria dos estrangeiros não se torna criminosa, é evidente.

Então, numa tentativa de satirizar os que aproveitaram esses crimes para aumentar o estigma contra imigrantes e convencer os governos a dificultar-lhes o asilo, o cartunista Laurent “Riss” Sourisseau desenhou dois homens correndo atrás de mulheres com as legendas: “O que Aylan Kurdi teria se tornado se tivesse crescido? Um perseguidor sexual na Alemanha.” A polêmica foi imediata. O que, para mim, mostra que a piada é ruim. Só o fato de ter que explicá-la já atestaria isso. Pessoas reagiram como se Aylan fosse o alvo da piada, mas não era. O que o cartunista tentava ridicularizar era justamente as pessoas que ficaram compungidas com a foto do garoto morto, mas agora estão com medo dos refugiados por conta de ataques sexuais. Expor a contradição entre essas posturas, acreditou Riss, poderia ser engraçado.

Infelizmente, não foi.

O humor é um misto de contradição, surpresa e alguma violação de regras. Mas não basta reunir violação e contradição de forma surpreendente para ter graça. Há comediantes que conseguem criar boas piadas com câncer e os que não conseguem fazer rir nem com a política. Mas a discussão maior é: eles têm liberdade total? Eu sinceramente acho que não – como já disse antes, auto intitular-se comediante não é salvo-conduto para ofender quem quiser – a liberdade não é um bem supremo. (Não sou a favor da censura prévia a nenhum tema, mas dizer “É piada” não pode isentar de responsabilidade pelo que se diz).

Mas nesse episódio todo outra contradição me chama atenção: a postura das pessoas que defenderam o Charles Hebdo quando ele satirizava o profeta Maomé e agora se indignam. Quer dizer então que os cartunistas podem ofender quem quiserem, desde que não nós?