A cada vez que se repercute a notícia de um homicídio a população fica mais amedrontada. E a cada vez que o termo psicose aparece nessas manchetes, as pessoas ficam com mais medo dos pacientes.

Não importa que cerca de 95% dos homicídios – nos países ricos – sejam cometidos por pessoas sem diagnóstico psiquiátrico. Isso em lugares sem crime organizado, sem taxas de assassinatos equivalentes a cenários de guerra. Aqui no Brasil não há números oficiais, obviamente, mas se levarmos em conta os crimes por motivos fúteis, os ligados ao tráfico, as chacinas, milícias etc., os homicídios cometidos por pacientes devem ser realmente insignificantes.

Embora nada no país seja preciso, é possível arriscar uns cálculos: pesquisas internacionais indicam que, quando estão se tratando, a cada dez mil pacientes com esquizofrenia apenas um comete um crime dessa natureza. Se esse risco for semelhante por aqui, onde dados oficiais apontam existir 2.500.000 pacientes, podemos estimar que 250 homicídios no Brasil são cometidos por eles. Já nos casos de primeiro surto psicótico, sobretudo antes do tratamento fazer efeito, o risco é um pouco maior – cerca de 1 crime a cada 700 pacientes. Mas incidência (número de casos novos por ano) da esquizofrenia é menor que a prevalência, cerca de 0,2 caso a cada 1000 pessoas, sendo possível estimar perto de 40.000 casos novos da doença por ano. O que dá mais uns 57 homicídios atribuíveis à doença.

Lembremos agora de que no Brasil ocorrem mais de 62.000 assassinatos por ano. Se uns 300 desses são cometidos por pacientes em surto psicótico, quer dizer então que 99,6% dos assassinos brasileiros não têm esquizofrenia.

Então, quando formos discutir as causas da violência no país, podemos por favor deixar os pacientes psiquiátricos em paz?

 

Nielssen O, Large M. Rates of Homicide During the First Episode of Psychosis and After Treatment: A Systematic Review and Meta-analysis. Schizophrenia Bulletin vol. 36 no. 4 pp. 702–712, 2010

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Leitura mental

Clássico lançado em meados do século XX nos EUA, Como mentir com estatística, do escritor Darrell Huff, foi lançado no país pela editora Intrínseca. Huff usa bom humor e exemplos do cotidiano – que apesar de antigos ainda funcionam – para mostrar como a forma de apresentar  números, gráficos e estatísticas de forma geral pode nos induzir ao erro mesmo que só contenham dados reais. O leitor consegue compreender sem dificuldade conceitos como média, mediana, moda, erro padrão e nível de significância, habilidade cada vez mais importante diante das informações que nos chegam. Afinal, como bem previu o escritor de ficção científica H. G. Wells  (citado numa epígrafe do livro), “No futuro, o pensamento estatístico será tão necessário para a cidadania eficiente como saber ler e escrever.”