A Dinamarca surpreendeu o mundo ao por fim a praticamente todas as restrições ligadas à covid19. Máscaras não são mais obrigatórias a não ser poucos lugares, como hospitais e casas de repouso, por exemplo. Não precisa comprovar vacinação. Acabaram-se as restrições de horário, lotação, seja o que for.

A surpresa não é apenas porque a pandemia não acabou – nem lá, nem em qualquer lugar – mas também porque naquele país a onda da variante ômicron ainda não atingiu o pico. Os casos continuam subindo; as hospitalizações também estão em ascensão, mas em proporção muito menor; o mesmo com as mortes – também subindo, mas ainda menos. Como é possível que em meio a uma alta de casos, internações e óbitos um governo sério, que nunca negou a gravidade da situação, opte por um caminho desses – com anuência da população? Sim, porque a maioria dos dinamarqueses concorda com o fim das restrições, mesmo não ignorando o cenário.

Eu tenho um palpite. Não de agora. Na verdade, foi uma ideia que me ocorreu praticamente no início da pandemia, que coloquei no artigo As mortes normais, ainda em abril de 2020, e que os dinamarqueses estão comprovando. O xis da questão parece ser a possibilidade de socorro, o que no caso da pandemia é percebido como vagas em UTIs. Ao contrário de casos, internações e óbitos, a ocupação das UTIs na Dinamarca vem caindo progressivamente – tanto por causa das características da ômicron, que representa  a quase totalidade dos casos, como por conta da ampla cobertura vacinal, atingindo 81% da população total, sendo 61% já com a terceira dose de reforço. Nesse momento entramos no que chamei de mortes normais.

Ouvimos muito o discurso segundo o qual nenhuma morte é aceitável e que não podemos normalizar a perda de vidas. Mas na prática não é bem assim. A sociedade aceita muitas – muitas – mortes. O trânsito é o maior exemplo: todos os anos morrem mais de um milhão de pessoas por acidentes de trânsito no mundo. Obviamente são mortes trágicas, mas abolir o transporte motorizado não passa pela cabeça de ninguém como política pública, dados os prejuízos de tal medida. Ou seja, aceitam-se as mortes quando se acha que os custos de eliminá-las não compensam os benefícios. E mais: a morte faz parte da dinâmica das sociedades e nesse sentido não precisa ser normalizada: morrer já é normal. A não ser quando, como no caso da pandemia, a morte se torna anormal – morrer por falta de UTI, sufocando por não ter oxigênio, ressalta a sensação de que tal morte não foi natural (ou normal, nesse contexto). Pensamos que se houvesse atendimento a pessoa teria uma chance, e morrer assim não é normal. Tais óbitos a sociedade não aceita nem normaliza.

Mas, como acontece agora na Dinamarca, quando existe a percepção de que não faltarão recursos para atender os doentes graves vem o alívio de saber que tudo o que pode ser feito será feito. Alguns morrerão, mas essas mortes, diluídas no tempo, distantes dos olhos, espalhadas no espaço, são exatamente as mortes às quais estamos acostumados. E por parecerem normais e aceitáveis os dinamarqueses passaram a considerar os custos das restrições como maiores que os seus benefícios.

Não os julguemos. Primeiro porque nós também estamos o tempo inteiro fazendo esse tipo de conta. E em segundo porque todos os países terão que fazer o mesmo cálculo em algum momento. Eles só saíram na frente.