SÃO PAULO 08.07.2015 ***PF: BORRAR O ROSTO DOS MENORES*** METRÓPOLE ESPECIAL DOMINICAL EXCLUSIVO EMBARGADO Gerais do Centro Socioeducativo Mario Covas (Fundação Casa). Matéria especial sobre os 25 anos do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Jovens na Fundação Casa. FOTO Tiago Queiroz/ESTADÃO

A morte de uma criança é uma tragédia. Em qualquer circunstância. Mas quando são crianças envolvidas em crimes que morrem assassinadas, a tragédia da morte é apenas consequência de outra, que se não é mais trágica, é anterior.

Um levantamento da ouvidoria da polícia do estado de São Paulo mostrou que a cada duas semanas uma pessoa com menos de dezesseis anos foi morta em ações policiais no Estado nos últimos anos. Nem vou entrar na discussão sobre a letalidade da polícia brasileira – que é um problema grave, mas para mim não se compara à tragédia que é o fato de tantas crianças e adolescentes estarem envolvidos com o crime.

Nós não nascemos sabendo o que é certo e o que é errado. Embora tenhamos um rudimentar senso de justiça inato, a sofisticação do raciocínio necessário para discernir o bom do mau, o justo do injusto, só se adquire com o tempo. Na primeira infância, nosso raciocínio moral se dá pelas consequências dos nossos atos: se o que fazemos é reprovado pelos adultos, está errado. Simples assim. Não há qualquer exame mental da situação, até por falta de capacidade cognitiva. Bronca = errado. Elogio = certo. No fim da infância e pré-adolescência passamos a nos moldar pelo comportamento dos outros. Notamos que as pessoas em nosso entorno se comportam de determinadas maneiras, fazem ou deixam de fazer algumas coisas, e adotamos esses modelos como parâmetro. Certo é o que todo mundo faz. Errado é o que todo mundo condena. Esse tipo de raciocínio entra pela adolescência, até que cai a ficha que o mundo não é só nossa turma, e que existe um combinado geral do que pode e o que não pode, chamado coletivamente de leis. Compreendemos que elas valem para todo mundo, e passamos a usá-las como o gabarito da moralidade. Finalmente, na idade adulta, alguns de nós (nem todos) passamos dessa fase para compreender que as coisas não são erradas só por ser proibidas – ao contrário, elas devem ser proibidas por serem essencialmente erradas.

Portanto, quando uma criança comete um crime ela não tem noção precisa do seu erro. Claro que ela sabe que a se a polícia pegar vai prendê-la. Mas para onde ela olha, vê gente fazendo igual. O pai está preso. O irmão foi morto em confronto. Os tios são do PCC. Para ela, errada está a polícia. E quando chega na adolescência, compreender as leis não adianta mais nada: a lógica da guerra já se instalou. Quem duvida, dê uma olha no documentário Notícias de uma guerra particular, no qual meninos de 11 anos relatam que tinham a missão de matar, adolescentes se queixam que não tiveram ainda oportunidade de matar um policial. “Você não tem medo de morrer?”, pergunta a entrevistadora. “Ah, todo mundo vai morrer um dia”, responde um menino encapuzado, doze anos no máximo.

Essa é a tragédia original. Sei que não choca tanto como a morte de um menino. Mas deveria chocar mais, pois nesse caso não é uma criança que está morrendo. São todas.