Há anos não se viam tantos indecisos numa eleição majoritária, o que complica demais qualquer projeção a partir de pesquisas eleitorais. Eles costumam ficar meio apagados nas notícias por conta disso – são difíceis de interpretar, não dão boas manchetes e fazem um estrago nas previsões à medida que vão se decidindo. Segundo pesquisa publicada há menos de uma semana, brancos, nulos e indecisos atingiam 10% entre homens e 18% entre mulheres – maior taxa em 20 anos, no caso delas.

Analisando as últimas eleições presidenciais americanas, pesquisadores australianos apresentaram uma teoria bastante interessante, que pode ser ao menos em parte aplicada ao cenário nacional. Tanto Donald Trump como Hilary Clinton tinham grande rejeição. E num contexto em que se é obrigado a escolher entre opções indesejáveis, a tendência das pessoas é permanecer indecisas por mais tempo. Faz sentido: quando deliberamos nós analisamos as consequências de nossas escolhas. À medida que nos inclinamos para uma direção o cérebro antecipa a recompensa que ela trará, aumentando seu apelo, levando finalmente à decisão. Mas imagine o contrário, quando todas as opções são rejeitadas. Nesse caso, contemplar os resultados das escolhas aumenta a aversão a elas, não seu apelo. Com isso, decidir torna-se muito mais difícil.

Uma das soluções adotadas para estabelecer previsões é distribuir os votos dos indecisos entre os candidatos na mesma proporção de suas intenções de voto. Calcula-se que vinte por cento deles acabarão votando em quem já tem a preferência de 20% do eleitorado e assim por diante. Mas nem sempre isso ocorre – e não foi o que aconteceu no caso dos EUA.

Esses pesquisadores atribuíram a eleição de Trump a uma característica humana curiosa, que nos leva a evitar o risco em algumas situações e a escolhê-lo em outras. Se nos é dada a chance de escolher entre ganhar um pouco ou arriscar perder tudo diante da chance de aumentar o lucro, usualmente ficamos com o pouco garantido. É a história do pássaro na mão. Mas em contextos em que a decisão é entre a certeza de perder um pouco ou arriscar tudo pela possibilidade de não perder nada, é mais comum escolhermos a aposta. Dizer se valeu a pena só é possível a posteriori, mas aí pode ser tarde demais.

Não sei o quanto podemos extrapolar dessas ideias para nossa realidade, pois não temos um sistema bipartidário como o americano e as regras eleitorais são bem diferentes. Mas é difícil negar a sensação de aposta que paira em nossos ares atuais. E diante de tanta rejeição que nossos candidatos apresentam, se essa teoria estiver certa, por mais estranho que pareça talvez ganhe quem for visto como a opção mais arriscada.

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Leitura mental

Não tenho dúvidas que Mario Livio é um dos escritores mais interessantes da atualidade. Astrofísico de formação, sua atuação como escritor de divulgação científica é das mais profícuas. Embora seus primeiros livros versem principalmente sobre a matemática, nos seus dois lançamentos mais recentes ele vai muito além, usando a discussão sobre a ciência e a curiosidade para tratar, em última análise, da própria mente humana. Em Tolices brilhantes – de Darwin a Einstein, os grandes erros dos maiores cientistas (Record, 2018), ele mostra que mesmo os cérebros consagrados pela história como brilhantes não estavam imunes a erros. A nossa natureza colocou armadilhas cerebrais das quais não podemos nos livrar – por mais geniais que sejamos. A grandeza está em saber caminhar em frente a partir dos inevitáveis tombos. Já em Por quê? – O que nos torna curiosos (Record, 2018), ele vai além e investiga a essência da própria curiosidade. Num trabalho minucioso de pesquisa e entrevistas, feito confessamente para matar a própria curiosidade, Livio brinda a todos nós, curiosos sobre nossa mente, qual a razão de querermos saber sempre mais.