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Eu acompanho futebol mais ou menos do mesmo jeito que acompanho as novelas: à meia distância, ignorando detalhes mas sabendo do geral, de forma a ser capaz de estar em dia com os assuntos principais. Futebol, afinal, é um assunto importante, no país e no mundo, dadas as paixões que mobiliza, os milhões de dólares que movimenta etc.

Por isso comento a aposentadoria do Ronaldo Fenômeno, um dos maiores jogadores da atualidade, e um dos grande de todos os tempos.

Mesmo sendo incapaz de discutir profundamente sua carreira, como a maioria das pessoas com quem conversei fui capaz de me emocionar com a entrevista em que anunciou o fim da atuação como profissional, momento genuinamente tocante. Melancolia pelo fim da carreira, gratidão pelo que recebeu, frustração pelo que não pôde fazer e orgulho pelo muito que fez se misturaram, terminando em lágrimas, coisa comum em situações quando as palavras não bastam.

Mas sinto dizer que o pior pode estar por vir. Como ensinou o Elio Gaspari ao comentar o fim dos dois mandatos de Lula, pedestal não tem escada de descida, sendo difícil sair de lá de cima sem levar um tombo. No caso dos atletas profissionais, então, a queda é duríssima, pois o sujeito não está apenas sem emprego, está sem profissão, como ouvi certa vez do Sócrates. E à essa ausência de um papel que não seja o de “ex” somam-se as seqüelas físicas dos anos de profissão.

Entre ex-atletas profissionais de futebol americano, por exemplo, entrevistados por meio de questionários auto-aplicados, foi encontrada uma taxa de depressão de 14,7%, próxima à da população geral, mas com presença mais elevada de dores crônicas. Esta associação entre humor deprimido e dores constantes aumentava o risco de diversas outras queixas, como insônia, dificuldades de relacionamento e socialização, preocupações financeiras e problemas com o condicionamento físico. Provavelmente as cicatrizes de corpos requeridos à exaustão atrapalham os atletas na tentativa de manter a saúde na aposentadoria, predispondo à depressão.

Tirando as preocupações financeiras, Ronaldo parece ter diversos dos fatores de risco. Torço para que sua já extensamente demonstrada capacidade de superação o ajude em mais essa batalha que terá pela frente.

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ResearchBlogging.org SCHWENK, T., GORENFLO, D., DOPP, R., & HIPPLE, E. (2007). Depression and Pain in Retired Professional Football Players Medicine & Science in Sports & Exercise, 39 (4), 599-605 DOI: 10.1249/mss.0b013e31802fa679