“Aconteceu que ao fim de uma manifestações popular, um rapaz vestindo camiseta pedindo a volta dos militares e morte aos corruptos foi assaltado e espancado, deixado quase nu e desacordado numa rua da cidade. Pouco depois passou por ali um moço que pregava o impeachment da presidente, mas ao ver o rapaz ferido, cruzou para outro lado. Em seguida, um militante de esquerda, com uma faixa a favor da presidente tomou o mesmo caminho, mas também desviou ao ver o ferido. Finalmente um black bloc veio por ali mas ao ver o homem caído teve piedade dele. Carregou-o até o pronto-socorro, deu-lhe roupas novas e fez contato com sua família, tudo às próprias custas. Qual dos três foi o ‘próximo’ do manifestante ferido?”

Sim, é uma releitura moderna e literariamente pobre da parábola do bom samaritano, história paradigmática da compaixão e amor ao próximo. A contextualização nos sectários dias de hoje é apenas para nos fazer pensar sobre o amor como um antídoto ao ódio que temos a impressão (real?) de que floresce em nossa sociedade.

Amar os inimigos, uma das poucas prescrições comportamentais de Jesus, é talvez a mais mal compreendida. Se considerarmos o amor em sua acepção mais comum – o afeto positivo que nos faz querer estar próximo do ser amado – não tem sentido amar um inimigo. Mesmo quando nos voltamos para definições mais sofisticadas, como a do professor de filosofia Simon May no livro “Amor: uma história” – amor é aquilo que nos dá um “enraizamento ontológico”, ou seja, o que nos liga à realidade ao mesmo tempo que dá sentido à vida – amar inimigos não é algo realista. Então ou esse mandamento é uma bobagem ou estamos falando de outra coisa.

Creio que estejamos falando de outra coisa. Amor aqui não tem a ver com sentimentos espontâneos agradáveis. É antes um exercício ativo, que requer energia e disposição para ir contra os instintos, de desejar o bem àqueles que nos prejudicam, de atuar em prol dos que nos boicotam, de responder o mal com o bem. Se parece difícil é porque é mesmo. Não precisaria ser um mandamento se fosse fácil. Mas os benefícios de tal comportamento, hoje sabemos, vão além da transcendência espiritual. Ou, para ser coerente, estão aquém do mundo imaterial, sendo reais e identificáveis no cérebro.

Existem algumas técnicas de meditação que têm princípios semelhantes, como a meditação compassiva ou meditação de compaixão – nelas, o objetivo é estimular sentimentos de cuidado e benevolência para consigo, com os outros, com inimigos e por fim com todos os seres vivos, fazendo isso a partir do exercício do pensamento. Enquanto recitam frases como “Possam todos estar livres do sofrimento e das causas de sofrimento. Possam todos encontrar a felicidade e as causas de felicidade” os praticantes dessa técnica se esforçam para desenvolver a empatia – a capacidade de se colocar no lugar do outro e compartilhar seus sentimentos – e a compaixão – o desejo sincero e desinteressado pelo bem do outro. Os estudos de neuroimagem vêm mostrando que tais técnicas aumentam a atividade cerebral nas áreas associadas à empatia, mas reduzem-na nos locais ligados aos sentimentos e emoções negativos, sentimentos que acompanham frequentemente as situações emocionalmente carregadas. Não só isso, a meditação pode ter consequências na realidade, já que uma semana de treinamento foi suficiente para aumentar o comportamento pró-social dos praticantes.

No fundo nós todos sabemos que amor gera amor e ódio gera ódio. Vejo as pessoas começarem a reagir à escalada de hostilidade social no crescimento de slogans como o “Mais amor, por favor” e a hashtag #MenosOdioMaisDemocracia. Não é preciso que um “coxinha” goste de um “esquerdista”, que um PM se afeiçoe a um black bloc, nem que você se apaixone pela Dilma. Mas desejar o bem a todos – incluindo nossos opositores -, encarando o amor como uma decisão, parece não só ser possível como altamente desejável se quisermos continuar caminhando firmes no movediço solo da vida em sociedade.

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Ricard, M., Lutz, A., & Davidson, R. (2014). Mind of the Meditator Scientific American, 311 (5), 38-45 DOI: 10.1038/scientificamerican1114-38