Netflix

Quando eu comecei ainda jovem a dizer para as pessoas próximas a mim que não existia alma gêmea, muitos ficaram decepcionados. Passamos tantos anos ouvindo contos de fadas na infância e assistindo comédias românticas na juventude que essa narrativa do par perfeito nos parece uma descrição do mundo e não um recurso da ficção.

Nada como o tempo para nos mostrar a realidade. Pouca gente adulta ainda acredita no príncipe encantado depois de experimentar um pouco da vida como ela é. Mas esses dias, assistindo à série The One, disponível na Netflix, percebi que esse não é um tema totalmente superado.

Na trama uma dupla de cientistas consegue decifrar o código genético dos seres humanos para encontrar sua combinação exata. Uma vez combinadas as pessoas experimentam um amor à primeira vista, a sensação única e transcedental que condena aquele relacionamento ao sucesso inevitável. Para aumentar o interesse na história ela envolve alguns crimes, investigações policiais, traições, nada muito fora dos clichês de séries para consumo imediato e digestão fácil.

Mas o fato de surgir mais uma obra com essa premissa, já explorada recentemente por tantas outras, mostra que no fundo nós mantemos a crença de que existe, em algum lugar, uma metade que nos complemente perfeitamente. Quem sabe nós só não tínhamos descoberto a forma de encontrá-la? Agora, com big data, crowdsourcing, engenharia genética, hiperconectividade, será que não conseguiríamos?

Não, não conseguiríamos. Simplesmente porque não há tecnologia avançada o suficiente para encontrar algo que não existe. Relacionamentos passam por muito, muito mais do que uma conexão estabelecida por ferormônios, envolvendo desde a história de vida das pessoas, seu entorno, visão de mundo, laços familiares, experiências afetivas anteriores e, talvez mais importante, a predisposição para o trabalho duro que é contruir uma relação de longo prazo.

Relacionamentos de sucesso são estabelecidos não por almas gêmeas, mas por pessoas dispostas a  arregaçar as mangas e suar a camisa – para ficar em mais dois clichês. Sem tal disposição não há tecnologia que faça de alguém sequer um bom partido, muito menos uma combinação infalível.

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Leitura mental

A propósito das variáveis biológicas de nosso comportamento vale a leitura de Homo biologicus – Como a biologia explica a natureza humana (Bertrand Brasil, 2021), do psiquiatra italiano Pier Vicenzo Piazza. Sem medo das acusações de reducionismo que cercam as explicações científicas para nossa essência, Piazza é cuidadoso desde o título: ele não defende que a biologia determine integralmente nossa vida, mas que ajude a compreendê-la de forma privilegiada. De fato, para qualquer aspecto da existência humana que nos voltemos poderemos encontrar aspectos biológicos subjacentes que, se não encerram sozinhos a questão, acrescentam bastante à sua compreensão. Trata-se, então, não de uma visão reducionista, mas bem ao contrário, de uma que amplia a forma de pensar sobre nós mesmos.