Pensar em suicídio não é algo tão raro  – cerca de uma em cada dez pessoas já teve esse pensamento em algum momento. Pensamentos são diferentes de planos ou tentativas, contudo, e só a minoria faz a transição entre contemplar essa possibilidade e de fato colocá-la em prática.

Tony bem que tentou. Depois de pensar bastante no assunto ele achou que estava pronto. Entrou na banheira sem roupas e com uma lâmina de barbear. Encostou a lâmina na pele. Mas enquanto hesitava, temendo diante da perspectiva da dor, sua cadela de estimação entrou no banheiro. Latiu pedindo comida. “Você está com fome?”, Tony perguntou com uma expressão que revelava compaixão, contrariedade e alívio enquanto saía da banheira para alimentá-la. Ele não voltou a tentar se matar, embora a ideia tenha permanecido com ele por muito mais tempo.

Tony é o personagem do comediante britânico Ricky Gervais na série After Life – Vocês vão ter de me engolir, produção original da Netflix. Conhecido por seu humor ácido e visão de mundo negativa, com a qual é capaz de arrancar risadas mesmo a contragosto, Gervais mostra nessa série de seis episódios que a vida pode ser mais complexa do que pinta em seus shows de stand up.

Seu personagem é um homem engraçado e inteligente que, recém enviuvado, lida com seu luto de forma peculiar. Ele não se importa mais – nem com sua própria vida, nem com a dos outros, com o bem estar alheio ou com regras de etiqueta ou boa educação. Nada é importante. Nas mãos de um brilhante observador como ele isso se torna um superpoder. A mesquinhez do nosso dia-a-dia, das futricas de escritório aos hábitos de consumo, não passam mais despercebidas: seu sarcasmo denuncia em voz alta como a nossas vidas são cheias de preocupações tolas.

Como não quero dar spoiler, deixe-me avisar que aqui vou revelar um pequeno desdobramento da trama – nada que não seja relativamente previsível em se tratando de um produto comercial para consumo internacional, mas é sempre bom informar.

Ao longo da série Tony vai lentamente mudando de atitude. Embora não de forma súbita – não há  uma grande virada – há um ponto que me pareceu chave: quando ele tenta ironizar o namoro de seu colega de trabalho, obeso, careca, desajeitado, mas a namorada demonstra-se imune à ironia. Ela realmente o ama, a despeito – ou por causa – dessas características. E o superpoder de Tony parece inútil diante do amor. A cena geral um mal estar no expectador, menos pelo constrangimento, que é até discreto entre os personagens, e mais pela empatia que sentimos por Tony quando ele nota como é mesquinho desdenhar da alegria alheia. Sua mudança se constrói assim a partir do relacionamento com as pessoas que o cercam, resistindo aos seus maus tratos e se importando com ele.

A vida continua sendo dura. E besta. Nós continuamos a perder tempo com futilidades. O luto continua sendo doloroso. Mas em meio a tudo isso é possível encontrar alguma alegria. Bons momentos. Motivos para mais um dia. E Tony, que não acredita na vida após a morte (daí o título: afterlife em inglês refere-se ao além), descobre que há vida após a morte.

E essa valorização da vida – mesmo com todos os seus defeitos – é provavelmente o melhor caminho para manter Tony, bem como os 10% de nós que já pensaram nisso, longe do suicídio.

***

Leitura mental

No que diz respeito a relacionamentos nós ainda temos muito o que aprender com o primeiro casal , segundo Bruce Feiler –  escritor sensação que busca na tradição judaico-cristã valores fundamentais, para além da religião institucionalizada. Em seu novo livro Adão e Eva, a primeira história de amor – E o que eles podem nos ensinar sobre relacionamentos (Zahar, 2019), ele resgata a narrativa do Gêneses, colocando dessa vez o foco não no pecado original, mas no relacionamento original. O amor  afinal, é a base para nossa sobrevivência e apareceu ali justamente como forma me aliviar os sofrimentos da existência. Coisa que pode fazer até hoje.