O efeito placebo não cansa de nos surpreender. Base de sustentação de uma indústria que vai da homeopatia à imposição de mãos, ele é tão potente que quando se diz que a eficácia de um tratamento é o mesmo que do placebo isso deveria ser visto como um elogio.

Casualmente deparei-me com duas pesquisas diferentes sobre o tema, publicadas esse ano, que ajudam a dar a dimensão desse efeito ao mesmo tempo em que revelam o quanto estamos longe de compreendê-lo totalmente.

A primeira foi publicada por cientistas chineses mostrando que a crença na eficácia de um tratamento pode ser transmitida indiretamente de uma pessoa para outra. Os pesquisadores dividiram voluntários para desempenhar o papel de médicos ou pacientes, a serem submetidos a testes para avaliar a eficácia de um creme para proteção da pele contra queimaduras, o fictício thermedol. Os voluntários no papel de médicos passavam o creme verdadeiro ou o placebo no antebraço dos voluntários no papel pacientes e então aplicavam calor de até 48 graus Celsius. Embora os pacientes não soubessem se era o creme verdadeiro ou não, os médicos acreditavam no que estavam aplicando. O que não desconfiavam é que não havia creme verdadeiro – ambos eram uma loção inerte, sem qualquer efeito (eles eram enganados – testavam em si mesmos o efeito, mas sem que soubessem, na hora do teste com o creme os cientistas reduziam o calor para dar impressão de eficácia).

O resultado foi que, quando eles acreditavam estar aplicando a fórmula com propriedades protetivas seus pacientes relatavam menos dor, reagiam menos emocionalmente e até faziam menos expressão de dor. A crença dos médicos no tratamento foi transmitida para os pacientes. (E é por isso que estudos sérios para testar eficácia devem ser “duplo-cegos”: nem pesquisadores nem pacientes sabem se estão tomando remédio ou placebo).

Ainda mais surpreendente foi o resultado de um estudo alemão, publicado também esse ano, com estudantes às voltas com provas finais. Eles foram divididos em dois grupos, cuja ansiedade e habilidade de gerir suas emoções foi medida nessa fase de exames. Metade deles foi então medicado com uma pílula sem qualquer efeito – coisa que eles sabiam – diariamente, durante duas semanas. Mesmo sabendo que se tratava de um comprimido de farinha, contudo, esse grupo apresentou redução da ansiedade e maior capacidade de lidar com as próprias emoções. Talvez porque os cientistas haviam dito que o efeito placebo pode ser intenso, eles se sentiram melhor – algo como um placebo do placebo.

Não é de se estranhar que as terapias mais implausíveis sejam defendidas pelas pessoas. Elas muitas vezes melhoram mesmo, independente da ação do remédio.  Basta que alguém acredite por elas. Ou ainda mais misteriosamente, às vezes mesmo que ninguém acredite.

Chen PA, Cheong JH, Jolly E, Elhence H, Wager TD, Chang LJ. Socially transmitted placebo effects. Nat Hum Behav. 2019 Oct 21. 

Schaefer M, Denke C, Harke R, Olk N, Erkovan M, Enge S. Open-label placebos reduce test anxiety and improve self-management skills: A randomized-controlled trial. Sci Rep. 2019; 9: 13317. 

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Leitura mental

A teoria da evolução e o mecanismo da seleção natural continuam a ser as formas mais elegantes de se explicar muito sobre nosso comportamento. Como no fundo somos homens das cavernas vivendo em apartamentos, muito de nossa programação mental foi moldada evolutivamente e ainda não está totalmente adaptada para as condições de vida que criamos no espaço de poucas gerações. Essas contradições são o mote do livro A evolução improvável (Harper Collins, 2019), no qual o psicólogo William von Hippel parte de nossas origens para compreender nosso comportamento atual e ajudar a construir um futuro melhor e mais feliz.