Peter Sellers interpreta Chance. Foto: IMDb

Estava por acaso passando numa movimentada rua perto do trabalho e resolvi conferir o balcão de livros em promoção em uma livraria. Corria os olhos pelos títulos, a maioria ponta de estoque de edições encalhadas, com um nome – novamente por acaso – chamou minha atenção. O videota, escrito em 1971. A estranheza do nome provocou minha curiosidade e qual não foi minha surpresa ao descobrir que se tratava do livro que inspirou o filme Muito além do jardim (de 1979), um dos últimos filmes do genial Peter Sellers. Comprei e guardei.

Esse mês por acaso resolvi tirá-lo da interminável fila de livros para ler. Já se passava bem uma década que havia assistido o filme, mas pelo que me recordei a adaptação foi bastante fiel. O protagonista chama-se Chance (acaso, em inglês), porque nasceu por acaso, de pai desconhecido e mãe falecida no parto. Foi criado como jardineiro na mansão de um rico advogado, praticamente sem contato humano, passando os dias assistindo TV e cuidando das plantas. Cresceu com um misto de ingenuidade e estupidez, carecendo de inteligência no sentido mais estrito da palavra, mas essa não lhe fazia falta. Até que o dono da mansão morre e Chance, sem documentos, sem registro de nascimento, sem família, se vê despejado.

Praticamente no instante em que sai de casa é atropelado  por uma limusine e, socorrido, vê-se levado por acaso à casa de um rico homem de negócios. Idoso e doente, esse milionário (com sua voluptuosa esposa) dá abrigo a Chance, e passa a apresentá-lo a seus influentes amigos. A trama se envereda por uma comédia de erros na qual ele é também tomado por um grande homem de negócios a cada platitude que fala.

A elite de Nova York e Washington fica encantada por suas respostas a cada pergunta. Até que encontra o presidente dos EUA, por acaso amigo íntimo de seu anfitrião, e este diz que gostaria de saber sua opinião sobre a crise econômica. Chance, sem entender a pergunta, responde que precisamos cuidar do jardim em todas estações, lembrando que há tempo para tudo – desde que cuidemos das raízes, com o tempo as flores voltam. O presidente recebe como uma mensagem de otimismo, cita Chance em seu discurso, e a partir daí ele ascende meteoricamente na vida pública.

Afirmando não ler jornais, dizendo não entender de nada e citando metáforas de programas de TV interpretadas como pérolas de sabedoria ele termina o livro sendo considerado o candidato ideal nas próximas eleições.

Olhando para o mundo afora, me pergunto: por acaso?