Você não precisa ir ao médico para ter uma ideia do que está acontecendo com você, e mesmo quais as possíveis soluções. Nem precisa ir à escola para ter acesso ao conhecimento de qualquer matéria que seja. Claro que, sendo as áreas do saber cheias de jargões, cada qual com um vocabulário próprio que extrapola o idioma, no final das contas uma ajuda para lidar com as informações pode ser bem vinda. E aí é que entra o novo médico, o novo professor, o novo advogado – quem antes tinha que transmitir o conhecimento, que só ele sabia, passa agora a ter o papel de gerenciar as informações a que todos têm acesso.

A disponibilidade praticamente irrestrita do conhecimento, no entanto, embora desejável, tem efeitos colaterais deletérios dependendo de como se lida com ela. A falta de capacidade crítica, de embasamento sólido para opiniões, de saber formular hipóteses, testá-las e não tirar conclusões apressadas, que sempre deu margem à proliferação de muita bobagem, é um fenômeno potencializado como nunca na internet.

Por isso entro numa campanha. Ideológica. Panfletária. Pela volta da coleção “Os cientistas”.

Talvez a maioria não conheça. Essa coleção foi uma iniciativa da saudosa Abril Coleções nos anos 70, que a cada 15 dias trazia às bancas fascículos sobre um cientista famoso que continham kit para realizar um experimento relacionado a sua área e o manual de instruções correspondente. Num Brasil em que moravam 90 milhões de pessoas, sem a pujança econômica de hoje, e quando ser “CDF” era ainda xingamento, foram vendidos quase 300.000 exemplares nos primeiros 15 dias. Hoje, que somos 200 milhões, com menos pobres e mais nerds, imagino que as vendas explodiriam.

Mais do que isso, no entanto, a ignorância poderia diminuir. E isso já foi testado com essa mesma coleção. Em 1974 a Profa Bernadete Gatti publicou um artigo no qual comparava a postura científica, por meio da capacidade de lidar com problemas novos e experimentos inéditos, de dois grupos de alunos da então 8a série. Quarenta e oito jovens foram divididos em dois grupos. Num eles passavam cinco dias trabalhando com kits de 4 cientistas diferentes, e no final tinham que montar um experimento do Newton, sem o manual de instruções completo. O outro grupo só participava dessa etapa final, não lidando antes com os kits. Ela concluiu que “o trabalho com os ‘kits’ da série Os Cientistas teve como efeito desenvolver conhecimento de conceitos e terminolo­gia, habilidades de compreensão e aplicação de prin­cípios, rigor na observação e mensurações, capacidade de solucionar problemas através de teste experi­mental de hipótese, o que, em conclusão, permite afirmar que, a longo prazo, o material se presta ao desenvolvimento do que chamamos de comportamen­to científico”.

Por isso estou em campanha. Há uma iniciativa em curso de um grupo de pesquisadores brasileiros para ressuscitar a coleção (mais informações aqui). Sou a favor. Panfletário. Piqueteiro. A luta continua. Abaixo a ignorância científica.

Perdão. Fiquei empolgado.

ResearchBlogging.org
Gatti, Bernadete Angelina, & Goldberg, Maria Amélia Azevedo (1974). A influência dos Kit’s “Os Cientistas” no desenvolvimento do comportamento cientifico em adolescentes. Cadernos de Pesquisa (Fundação Carlos Chagas), São Paulo, , 10, 13-24