Entremear minhas férias com o trabalho de inaugurar este novo espaço foi motivo de grande alegria. Primeiro pela oportunidade de integrar um time tão ilustre ao juntar-me ao grupo Estado (só os novos vizinhos do site já valeriam o esforço). Mas, além disso, também porque o trabalho duro nos faz mais felizes do que a folga.

Atravessando o Reino Unido de carro com minha esposa e meus pais, indo das terras altas da Escócia até o sul da Inglaterra através de cidades pequenas e estradas minúsculas, esse tema já vinha passando por minha cabeça. Tudo começou quando, notando que o carro alugado fazia grande parte do trabalho sozinho, já que era equipado com GPS, meu pai fez um comentário com o qual concordei imediatamente: “Viajar com GPS perde um pouco a graça, não é?”. Concordei, mas não sem certo conflito – se nem ele nem eu somos saudosistas que acham que tudo era melhor antigamente, nem tampouco tecnófobos, desconfiados de qualquer coisa que use pilhas, por que sentíamos que outras viagens – com mapa no colo, estudando pontos de referência e debatendo qual via seguir – eram mais recompensadoras do que as mais recentes, guiadas por satélite?

Justamente porque aquelas davam mais trabalho.

É claro que é mais fácil apertar dois ou três botões e seguir as indicações; tecnologia serve para isso mesmo, facilitar a vida. Mas não se pode negar que, se ganhamos em conforto, perdemos em realização, privados do sentimento de vitória ao decifrar um labirinto de estradas e conseguir chegar ao destino.

Essa foi a mesma conclusão de um grupo de pesquisadores da escola de negócios da Universidade de Chicago no ano passado. Eles apresentaram um formulário a voluntários, oferecendo em troca uma barra de chocolate. Os sujeitos podiam esperar 15 minutos e pegá-la ali mesmo, ou gastar esse tempo indo a pé buscá-la em outro local. Mesmo variando o tipo de chocolate (escuro ou ao leite) e o grau de liberdade das pessoas para escolher o que fazer, todos que tiveram mais trabalho se sentiram mais felizes do que quem teve folga. Os pesquisadores concluíram que o ócio na verdade nos aflige, e o que queremos mesmo é ficar ocupados – só precisamos de um motivo.

Creio que a partir de agora motivos para ficar ocupados não faltarão nem a mim – que passo a ter um blog a sustentar –, nem aos leitores – que terão mais textos para ler. Mas sinceramente espero que acompanhar esse blog dê tanto trabalho quanto escrevê-lo,  para assim compartilharmos da alegria que é estar aqui.

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Hsee CK, Yang AX, & Wang L (2010). Idleness aversion and the need for justifiable busyness. Psychological science, 21 (7), 926-30 PMID: 20548057